O neopentecostalismo é uma religião que colou nos mais pobres, não como uma opção pelos excluídos, como fez a Igreja Católica, mas para convertê-los. O resultado é que uma dessas denominações, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), experimentou o estrondoso crescimento de 681,5% no número de fiéis, de 1991 a 2000.

No mesmo período, as demais igrejas evangélicas cresceram, juntas, 98,5%, os católicos aumentaram 2,5%, bem abaixo da taxa de crescimento da população brasileira, que foi de 15,7%. A análise é do sociólogo e professor da Universidade de São Paulo (USP), Antônio Flávio Pierucci, em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, no sábado, 11 de fevereiro.

Na avaliação de Pierucci, a maior taxa de crescimento vem se dando com as igrejas que pregam a Teologia da Prosperidade, como é o caso da IURD, e as que pregam o milagre da cura, como a Igreja Deus é Amor, que cresceu 357,6% no período. O Brasil será, pois, um país com uma cara cada vez mais pentecostal, mais conservadora nas questões de moral sexual.

As igrejas neopentecostais introduziram uma grande novidade no mundo religioso cristão: a valorização positiva do dinheiro. “Você dá dinheiro para a igreja e quanto maior a tua generosidade, maior a tua recompensa. Isso nunca houve. É como se fosse uma aplicação, você investe na igreja e aguarda um retorno de Deus. Isso é uma invenção dos neopentecostais, uma grande mina de ouro”, explicou o sociólogo.

O protestantismo do século XVII, lembrou o entrevistado, dizia que Deus iria coroar de sucesso o fiel que trabalhasse. O trabalho era recompensado. Já o neopentecostalismo valoriza o dinheiro. E o dinheiro pode ser transformado numa mansão para moradia do pastor. O sucesso “reforça a idéia de que Deus de fato recompensa aqueles que oram, e que o dinheiro é uma coisa positiva, desejável”, assinalou Pierucci.

Uma outra diferença apontada pelo professor da USP na entrevista é que o crente neopentecostal é levado a ser exigente com Deus, a cobrar de Deus. “’Eu dei pra você tudo que eu tinha no banco, você é fiel, você não vai me abandonar, você vai fazer isso que estou pedindo’. É um jeito de orar cobrando, nada parecido com as orações tradicionais, que pedem com humildade”, comparou.

A Teologia da Prosperidade é americana, mas foi processada no Brasil, onde igrejas a inovaram ao pregá-la em grandes espaços, ocupando mídia e criando uma igreja-empresa, arrolou o sociólogo. Daí que igrejas neopentecostais são denominações capitalistas.

Na avaliação de Pierucci, o neopentecostalismo não respeita tradições nem cultura, é impiedoso com religiões menores, como as afro-brasileiras, “age como se estivesse numa guerra, disputando fiéis. Isso explica o seu rápido crescimento, especialmente na periferia das grandes cidades e nas regiões onde o catolicismo não avançou”.

Fonte: ALC