O dia 8 de maio entrou para a história da Irlanda do Norte com a implantação, na terça-feira, do acordo de divisão do poder entre a minoria católica, representada pelo Sinn Fein, e a maioria protestante, defendida pelo Partido Democrático Unionista (DUP).

No mais recente acordo de uma série de tentativas mal-sucedidas, o governo de coalizão parece abrir um novo capítulo na disputa por poder na Irlanda do Norte, –e para o especialista Paul Arthur, da Universidade do Ulster, em Belfast, este governo tem grandes chances de funcionar.

“Este acordo é diferente, é o primeiro totalmente inclusivo. No passado, havia partidos que não concordavam, com destaque para o DUP, mas agora todos estão engajados em fazer o governo de coalizão funcionar”, disse à Folha Online Arthur, professor do Departamento de Política da universidade e pesquisador em relações anglo-irlandesas, por telefone.

“Acredito que a coalizão tem muito mais chances de funcionar desta vez. Todos os pontos de discordância foram trabalhados em princípio. Agora a questão é colocar tudo em prática”, afirmou ainda o estudioso.

O acordo levou o líder protestante Ian Paisley, do DUP, a assumir o cargo de primeiro-ministro do governo de divisão de poder do país. Ao seu lado, o líder católico Martin McGuinness, do Sinn Fein, assumiu o cargo de vice-primeiro-ministro.

O pacto em torno do governo conjunto foi selado em 26 de março deste ano com o objetivo de colocar de lado as hostilidades entre ambos os lados, que já duram décadas. Desta vez os líderes protestantes e católicos parecem determinados em fazer a nova liderança funcionar.

Na divisão do poder executivo prevista para o acordo, o DUP assumiu cinco cargos de ministro de gabinete, enquanto o Sinn Fein ficou com quatro. Protestantes moderados da União do Ulster obtiveram outras duas cadeiras, e os partidos católicos Democracia Social e Partido Trabalhista ficaram com a última.

A expectativa é que o início dos trabalhos do governo de coalizão e da nova Assembléia da Província, cuja sede fica em Stormont, acabem com os conflitos entre católicos e protestantes, que eram inimigos históricos há séculos.

Riscos

Apesar da perspectiva positiva, o novo governo de coalizão deverá enfrentar grandes desafios. “Há sempre o risco de opositores recorrerem à violência, o que desestruturaria tudo o que foi alcançado até agora”, alerta Arthur.

No entanto, ele minimiza o risco dessa possibilidade ocorrer. “Não acho que haja dissidência forte o suficiente para chegar a prejudicar o acordo”, afirma o especialista.

Mais provável, diz ele, é que dificuldades econômicas desequilibrem o governo de coalizão. “O governo terá de tomar decisões que nunca tomou antes, e claro que podem haver diferenças ideológicas entre os partidos sobre o tema”, afirma.

IRA

O acordo não teria sido possível sem o desarmamento da guerrilha católica IRA (Exército Republicano Irlandês). Após anos de confrontos, o Sinn Fein –braço político do grupo– pediu que o grupo abandonasse as armas em 2005, após uma campanha de vários crimes atribuídos à guerrilha, como a morte do católico Robert McCartney, que causou indignação internacional.

Em julho do mesmo ano, o IRA anunciou que pediu a seus membros que abandonem as armas, e em outubro de 2006 a Comissão Independente de Monitoramento da Irlanda do Norte, que supervisiona o cessar-fogo, disse acreditar que o IRA havia de fato se desarmado.

“Ninguém na Irlanda do Norte tem dúvidas de que o IRA realmente depôs as armas dessa vez”, disse Arthur. “Se houvesse qualquer dúvida, não veríamos um governo de coalizão sendo formado hoje.”

Irlanda unida

A implantação do acordo poderá ter implicações também na luta pela união da Irlanda do Norte com a Irlanda, uma das bandeiras do Sinn Fein.

Para Arthur, o partido católico deve investir nos próximos dez anos na tentativa de convencer a população da Província de que é mais vantajoso para eles se unirem à Irlanda do que a Londres.

“A economia irlandesa é incrivelmente vibrante, provavelmente uma das mais saudáveis da União Européia (UE) neste momento. Isso é muito atraente para as pessoas no norte”, afirma.

O especialista lembra ainda que tanto a Irlanda quanto a Irlanda do Norte [como parte do Reino Unido] são membros da União Européia, o que pode ser outro fator de aproximação.

Blair

O Reino Unido celebrou a implementação do acordo hoje. O premiê Tony Blair, que planeja deixar o cargo nesta semana, vê o acordo entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte como um dos principais méritos de seus dez anos à frente do governo britânico.

“Blair está certo, essa provavelmente é sua maior conquista. Ele está tão desgastado pelo conflito no Iraque que o acordo na Irlanda do Norte é uma das poucas coisas positivas que ele pode reivindicar”, diz Arthur. “Desde o dia em que foi eleito em 1997, ele colocou a paz na Irlanda do Norte como uma de suas principais prioridades.”

O especialista lembra que vários premiês tentaram, sem sucesso, levar paz à Província durante cerca de 150 anos –e, antes de hoje, todos falharam. “Blair é o primeiro que pode dizer que alcançou algo de importância extraordinária”, completa Arthur.

Para o especialista, a saída de Blair do governo, que deve ser anunciada ainda nessa semana, não terá efeito sobre o acordo.

Em discurso feito hoje, Blair afirmou que a Irlanda do Norte deixa para trás “séculos de conflito e ódio”, e que o governo de divisão de Belfast é uma alternativa para “escapar deste caminho”.

Fonte: Folha Online