Ainda que centenas de casos de abuso sexual por sacerdotes católicos tenham vindo à luz nos últimos anos, resultando em acordos e indenizações judiciais no valor de milhões de dólares, o problema não se limita aos membros do clero.

Começando na sexta série e por diversos anos depois disso, Claudia Vercelotti alega ter sofrido repetido abuso sexual de parte do encarregado dos serviços para a juventude da Diocese Católica de Toledo, Ohio, que responde por 19 condados no Estado americano.

Ela disse que posteriormente descobriu quatro outras meninas que haviam sofrido abusos da parte do mesmo homem, ainda que ele negue os delitos.

Joelle E. Casteix conta que, quando começou a estudar na escola Mater Dei de segundo grau, um colégio católico em Santa Ana, na Califórnia, ela passou a sofrer abusos por parte de um professor laico. Ela tinha 15 anos. O professor a infectou com uma doença venérea e a engravidou, segundo Casteix, o que resultou em um aborto. Registros judiciais indicam que diversos outros funcionários da escola, entre os quais professores, um orientador e um técnico de esportes – também praticaram abusos contra alunos.

Christopher Reardon se admitiu culpado de estupro, assédio e pornografia, em acusações que envolviam 24 meninos contra os quais ele teria praticado abusos quando era diretor de educação religiosa na paróquia católica de Sta. Agnes, em Middleton, Massachusetts, e como técnico de natação em um acampamento, não relacionado à Igreja Católica. A polícia descobriu registros em seu computador nos quais ele descreve detalhes íntimos dos corpos de 250 garotos.

“As pessoas não querem enfrentar a realidade de que não são apenas os padres que praticam abusos”, disse Laura Ahearn, diretora executiva de uma organização que combate abusos contra crianças. “Aqui, em Long Island, havia um ministro laico que trabalhava com jovens, um diretor de coral e até um voluntário da cozinha comunitária do colégio envolvidos em abusos”.

Em todo o País, dizem especialistas, foram apresentadas queixas por abuso sexual contra diversos voluntários e funcionários laicos de igrejas, entre os quais conselheiros de acampamentos, seminaristas, professores de escola dominical, trabalhadores de creches e clínicas e professores de catecismo.

Também houve casos de freiras acusadas de abusos sexuais. “Temos 40 freiras em nosso banco de dados”, disse Anne Barrett Doyle, co-diretora da Bishop Accountability, uma organização nacional norte-americana que compila dados sobre abusos sexuais praticados pela Igreja.

O padre Thomas Doyle, que no passado trabalhou na embaixada do Vaticano em Washington e mais tarde passou a criticar a postura da Igreja com relação a essa questão, disse que as pessoas muitas vezes se surpreendem com as queixas contra freiras, considerando-as “mais difíceis de enfrentar”.

O mais recente julgamento a colocar em destaque o problema de abusos sexuais praticados por funcionários laicos da Igreja está aguardando julgamento no tribunal estadual do condado de Nassau, Long Island. Matthew Maiello, que trabalhava com jovens e dirigia a missa do rock na paróquia de São Rafael, em East Meadow, nos anos 90, se admitiu culpado de estupro e sodomia contra quatro menores, em 2003, e foi sentenciado a dois anos de prisão.

Duas das vítimas processaram Maiello, a paróquia, o padre titular e a diocese de Rockville Centre, solicitando indenização de US$ 150 milhões, e depois de um julgamento civil de três semanas de duração que ofereceu um panorama poucas vezes visto sobre os abusos sexuais praticados pela Igreja Católica, o júri está agora deliberando o veredicto.

Não existem estatísticas confiáveis sobre as dimensões do problema. Em 2003, a Conferência Nacional dos Bispos Católicos dos Estados Unidos contratou o Colégio John Jay de Justiça Criminal para estudar o número de queixas de abuso sexual, mas limitou o escopo do trabalho a casos envolvendo sacerdotes e diáconos.

O estudo, que abarca todas as dioceses dos Estados Unidos, constatou que 10.667 pessoas haviam apresentados queixas contra 4.392 padres entre 1950 e 2002, ainda que os críticos aleguem que muitas das vítimas nunca apresentaram queixa, e que muitas queixas não foram registradas pela Igreja.

“Há escassez de dados sólidos sobre essa questão”, disse David G. Clohessy, diretor nacional de uma rede de vítimas de abusos praticados por religiosos conhecida como Snap. “É uma imensa lacuna, e isso é perturbador. Minimizamos o horror”.

Já que os padres constituem a minoria dos quadros dos trabalhadores da Igreja, afirma Clohessy, “é pelo menos plausível que número igual ou ainda maior de pessoal laico tenha praticado abusos”.

Uma porta-voz da Igreja Católica nos Estados Unidos, a irmã Mary Ann Walsh, da Conferência Nacional dos Bispos Católicos, negou que a Igreja tenha tentado ocultar os abusos dos funcionários laicos e voluntários.

Ainda assim, nos últimos anos a Igreja iniciou programas preventivos em todo o País. Em Long Island, a diocese de Rockville Centre diz que conduziu estudos de antecedentes sobre 64 mil trabalhadores e voluntários.

A diocese diz que mais de 226 mil católicos de Long Island, incluindo os paroquianos, haviam passado por sessões de treinamento e informação, associadas aos escândalos gerados por abusos sexuais. Foi uma dessas sessões que causou a queda de Maiello.

Depois da reunião, uma paroquiana da igreja de São Rafael conversou com uma adolescente que ela suspeitava ter sofrido abusos, e depois procurou a polícia do condado de Nassau, que deteve Maiello. A menina é uma das duas vítimas que está processando Maiello e a Igreja.

Fonte: Portal Correio