Um adolescente de 16 anos, que tem uma aparência tranqüila e calma, olhos que chegam a ser doces e sem um tom de agressividade na voz matou três pessoas em Rio Brilhante (MS) nos últimos sete meses.

Essas são as características que saltam aos olhos de quem se aproxima do “maníaco da cruz”, um adolescente como outro qualquer e que agora está apreendido e longe da família em uma cela isolada na Delegacia de Atendimento à Criança e ao Adolescente (Deaij) desde o dia 9 de outubro.

Apesar do rosto calmo, em nenhum momento o jovem mostra arrependimento pelas mortes ou compaixão pelas vítimas. Em conversa reservada com o Capital News em uma sala da Deaij em que estava um repórter, o adolescente e um investigador de polícia, o garoto demonstra sensatez e muita racionalidade em suas palavras. Não dá sinais de insegurança e antes de responder, pensa muito no que vai falar. “Eu matei porque deu vontade”, afirma sem pestanejar.

Maior parte do tempo monossilábico, N (como ele será identificado no decorrer dessa matéria), se mostrou aberto a falar mais quando questionado acerca do céu e do inferno e também quando se referia à sua suposta “inteligência” e ao seu grande conhecimento sobre questões relacionadas ao ocultismo. “Não acredito em céu, inferno, mundo espiritual. Isso não existe. Existe apenas para quem acredita nessas coisas”, disse com confiança.

Ao ser questionado sobre quem Lúcifer (o anjo que segundo a Bíblia foi expulso do céu por trair e sentir inveja de Deus) representava para ele, N. afirmou que “é um anjo”. Mas logo depois, sem querer dar detalhes sobre as coisas que acredita e segue, emendou que “mas ele não existe”.
O adolescente freqüentou igrejas católicas e evangélicas até seus 15 anos de idade. “Ano passado eu fui na igreja até março, daí parei”, detalhou. Perguntado sobre o motivo de ter parado de freqüentar missas e cultos, N. disse simplesmente que “não gostava mais. Dentro da igreja eu já não acreditava mais em Deus”, afirmou, explicando que “ele (Deus) nunca me deu provas de que existe”.

Crimes

As três mortes que N. cometeu são classificadas como “tenebrosas” pela polícia devido a maneira como as pessoas foram mortas e encontradas: enforcadas e na posição de crucificação. Para N., a colocação dos corpos nessa posição tem um significado, mas antes de mesmo de explicá-lo, o adolescente olhou nos olhos da repórter e disse que “tem muita coisa pra explicar e eu não sei como explicar”. Mesmo diante da insistência da reportagem, o garoto não comentou mais sobre os propósitos de colocar os corpos como se tivessem sido crucificados.

N. não deu detalhes das mortes e em certos momentos mostrava-se um tanto quanto impaciente diante de perguntas que ele considerava tolas. Uma delas é com relação à lista de vítimas que ele teria feito para matar. “Isso não é verdade, esse pessoal fala muita coisa que não é verdade”, comentou.

O adolescente também se mostrou indignado quando questionado sobre a vontade que teria de beber sangue de suas vítimas, uma vez que em nenhuma das mortes ele se utilizou de objetos cortantes para matá-las, já que as matou enforcadas. “Você queria que tivesse sangue?”, perguntou N. à reportagem, com um tom um tanto quanto desafiador. “Eu não queria sangue nem mesmo que houvesse ocorrido as mortes”, devolveu a repórter sendo em seguida respondida pelo adolescente: “só tem uma pessoa que eu queria matar para beber o sangue”. Ao ser perguntado sobre quem seria essa pessoa, N. responde que “é uma pessoa que eu não matei porque não tive oportunidade”, afirmou.

Essa tal pessoa se trata de uma adolescente, também de 16 anos e que por certo tempo freqüentou a turma de seguidores do satanismo do adolescente. Conforme a delegada da Deaij, Maria de Lourdes Cano, N. era o líder desses adolescentes e como essa garota, que estudava na mesma escola que ele não estava seguindo os rituais como deveria e estaria se “desgarrando”do grupo, N. a teria jurado de morte. “O que ela fez não se faz. O que ela fez é pior que feio”, disse o adolescente, sem, mais uma vez, querer detalhar o que de fato se passava em seus pensamentos.

Sobre continuar ou não matando, N. disse que se sair da prisão não vai mais matar ninguém, no entanto, sua única justificativa em não mais querer tirar a vida de pessoas que julgar “impuras” é porque “não quero mais ficar preso, é muito ruim ficar privado da sua liberdade”, destacou.

Família e amigos

N. afirmou que seus amigos, dois de 14, dois de 15 e um de 16 anos sabiam de seus crimes e que sua namorada, que mora em Umuarama (PR) e que tem 19 anos ficou sabendo do primeiro assassinato. “Acho que nenhum deles acreditou na minha história”, comentou.

Sem lágrimas nos olhos, N. disse que teve dó de sua mãe, mas que não deixaria de matar por causa dela. O garoto falou também que não vê sua mãe desde segunda-feira (13), quando ela veio a Campo Grande prestar depoimento. “Nunca falei muito com minha mãe, mas senti dó dela”.

Questionado se ele ou sua mãe fossem sido mortos como suas vítimas, N. afirmou que “ninguém nunca faria isso comigo, ninguém teria motivo de fazer isso comigo”, assinalou sem gaguejar.

Ele disse ainda que não contava para ela sobre seus relacionamentos e que já havia namorado outras garotas em sua cidade. “O fato de minha namorada ser de outro lugar aconteceu, não fui eu que escolhi”, disse, querendo se esquivar em comentar sobre seus possíveis relacionamentos.

O adolescente contou que nunca conheceu seu pai e que mora com sua mãe e o padrasto desde os dois anos de idade. Disse ainda que eles nunca brigaram, que não vivia em uma casa violenta, que nunca passou fome ou qualquer outro tipo de necessidade e que nunca apanhou ou foi violentado. “Tenho raiva desde sempre,muita raiva”, disse, explicando o porque de ter matado três pessoas, mas sem dizer o porquê de sentir tanta raiva. “Não sei porquê”.

A reportagem ainda indagou N. se ele se considerava alguém com algum tipo de desvio psicológico e ele disse que não. Sobre ser ou não psicopata o adolescente repondeu apenas que “todos são psicopatas desde que nascem, mas uns mostram, outros não”. “Você mostrou o que é?”, perguntou o Capital News e N. disse “sim”.

Quando não está sendo interrogado pela justiça ou em uma sala da Deij, N. passa mais de quatro horas sozinho em uma cela lendo um livro de história. “História do Brasil, eu gosto de História do Brasil”.

Fonte: Capital News