Ele não fala espanhol e não tem opinião sobre o que os Estados Unidos deveriam fazer com a imigração ilegal, mas o reverendo Larry Kreps sabe que agora está em uma lista de pessoas que se dispõem a ajudar imigrantes em crise.

Começou como um projeto modesto. Há alguns meses, um membro da congregação de Kreps, em um subúrbio de Ohio, estava procurando um lugar em que hispânicos locais pudessem se encontrar, e Kreps ofereceu espaço na Igreja Metodista Unida John Wesley. Uma aula de escola dominical sobre imigração foi dada em agosto.

Dias depois, com apenas um telefonema de aviso, dezenas de imigrantes desesperados, escapando de uma batida das autoridades em um frigorífico local, apareceram à porta da igreja, procurando proteção.

Kreps deixou-os entrar, e membros de sua congregação –de maioria branca– entraram em ação. Alguns trouxeram comida, alguns prepararam a área da academia da igreja e a sala do coral para os imigrantes dormirem.

“Uma pessoa me deu 100 dólares para comprar coisas”, disse Kreps, na cozinha da igreja onde as refeições eram preparadas, no momento vazia e silenciosa. Foi uma noite de tensão, com as famílias assustadas e Kreps preocupado com a possibilidade de que a polícia ou agentes federais aparecessem.

“Não estava claro, legalmente, se as autoridades poderiam ou não entrar em um lugar de culto”, disse ele. “Mas vimos a questão de um jeito simples: ‘o que Jesus faria?’ Você ajuda primeiro e faz as perguntas depois.”

Mas ajudar imigrantes ilegais se tornou um negócio impopular nos Estados Unidos. Na campanha pela Presidência, candidatos republicanos e democratas estão evitando expressar qualquer apoio aos 12 milhões de imigrantes ilegais, e o norte-americano médio está sendo também cuidadoso, com a percepção negativa dos imigrantes ilegais em alta.

Um terço dos norte-americanos querem que os imigrantes ilegais percam o direito a serviços sociais, incluindo escola e atendimento médico de emergência, segundos pesquisa do Los Angeles Times/Bloomberg publicada este mês.

Congregação dividida

O impasse político sobre a imigração nos Estados Unidos e os aumentos das batidas policiais para deportar trabalhadores sem documentos colocou a crise cotidiana da imigração ilegal nas mãos de gente como Kreps.

Susan Woodward, 54 anos, ajudou as famílias que ficaram na Igreja Metodista, mas ela sabe que nem todos na congregação concordam com a ajuda aos ilegais.

Sylvia Castellanos, que trabalha na Coalizão pelos Direitos e Dignidade dos Imigrantes, disse que líderes religiosos são abertos a ouvir e ajudar, mas nem todos os fiéis têm essa postura nas sessões informativas que ela organiza.

“Vivemos numa região muito conservadora e as pessoas às vezes seguem estereótipos”, disse.

O diálogo é difícil na Primeira Igreja Metodista Unida de Hamilton, Ohio, na mesma área do frigorífico que sofreu a batida das autoridades.

“Diria que estamos divididos ao meio”, disse o reverendo Kenn Barton. Ele está tentando enfocar no amor divino, mas tem de pisar em ovos. “É difícil. Tento ir devagar”, disse.

Fonte: AFP