igreja abandonadaCem igrejas católicas pertencentes ao bispado de Essen, na região do Vale do Ruhr, no oeste da Alemanha, deverão encerrar suas atividades nos próximos anos, em virtude da diminuição do número de fiéis freqüentadores e do alto custo para manutenção das igrejas.

Apesar de poderem se orgulhar de contar com um conterrâneo, o cardeal Joseph Ratzinger, o papa bento XVI, os católicos de uma das mais desenvolvidas nações do globo deverão assistir à destinação de muitas de suas igrejas a outra funções, religiosas ou não – de sinagogas a centros culturais.

Segundo o encarregado de cultura e imóveis do bispado de Essen, o teólogo Herbert Fendrich, das 350 igrejas que integram atualmente o bispado (composto por importantes municípios do oeste alemão, como Essen, Duisburg, e Bochum), 100 deverão encerrar suas atividades em breve – pelo menos no que se refere a atos religiosos católicos. Escolhidos pelo bispo de Essen, os templos deverão passar pelo chamado processo de “profanização”, antes de terem suas instalações cedidas a outras atividades.

Na cerimônia de profanização, que antecede a passagem da igreja a novas funções, as velas da igreja são apagadas, o tabernáculo é retirado e os fiéis deixam o local, em procissão.

Entre os motivos do fechamento de tantas igrejas em um país cuja população de aproximadamente 80 milhões de pessoas tem cerca de 50 milhões de cristãos declarados (dos quais 50% católicos, 50% protestantes), estão a diminuição do número de fiéis que freqüentam as missas e as dificuldades econômicas para manter as igrejas.

Só em Duisburg, município com população aproximada de 500 mil habitantes, dos quais 200 mil são católicos, segundo estimativas do bispado de Essen, há atualmente 50 igrejas em funcionamento. “Já tivemos mais de um milhão e meio de católicos em todo o vale do Ruhr, em 1960. Hoje temos 900 mil, e prevemos que esse número deva cair ainda mais, chegando a 650 mil em 2050”, declarou Herbert Fendrich, em entrevista coletiva a jornalistas brasileiros, no piso superior da igreja de Liebfrauenkirch, de fachada moderna, que mesmo localizada em uma das mais nobres áreas de Duisburg está na lista das que terão suas atividades religiosas encerradas ou drasticamente reduzidas.

Novas realidades

“Essa diminuição do número de fiéis se deve à baixa da natalidade, ao envelhecimento da população e à dificuldade da Igreja para se adaptar a novas realidades.

Com isso, hoje temos igrejas demais para o número de fiéis”, acrescentou, mencionando também um “enxugamento” no número de paróquias, que caiu de 265 para 42, em meio a outras dificuldades, como o baixo número de padres.

Contribuições

Fazendo referência ao sistema trabalhista alemão, que permite o desconto em folha de pagamento de contribuições para a Igreja, daqueles que se declarem formalmente religiosos, Herbert Fendrich diz que a Igreja alemã “se acomodou”há muitos anos.

“A Igreja vive dos impostos eclesiásticos, mas a população diminuiu, e a nossa região do Vale do Ruhr tem desemprego cada vez mais alto. Quem está desempregado não paga o imposto clerical.

Assim, a arrecadação foi diminuindo mais e mais”, explicou, citando a região do oeste alemão que representou um dos principais núcleos da industrialização do país, com forte presença de empresas de aço e carvão, atividades hoje em declínio, contribuindo para a taxa média de desemprego de 15%, na região do Ruhr.

“No geral, a Igreja Católica alemã ainda é uma das mais ricas do mundo. Mas cada bispado tem de cuidar da sua realidade, e em Essen gastamos todas as reservas”, afirma o teólogo, hoje envolto em um papel de “corretor de igrejas”, estimando em 70 milhões de euros (aproximadamente 196 milhões de reais), a dívida contraída pelo bispado em 2005.

Crise católica

“Pode-se dizer que o país do papa enfrenta uma crise católica”, afirma Fendrich, para quem a a situação do bispado de Essen é particularmente grave, mas exemplifica uma tendência refletida em toda a Alemanha.

“Se somos ou não o país do papa, isso não faz muita diferença quanto a esse aspecto”,diz, apontando o envelhecimento da população como outro vértice da questão.

“Hoje, a missa de domingo é acompanhada praticamente por pessoas acima de 65 anos. A linguagem da missa, e a do próprio papa, ainda é de difícil comunicação com os jovens”, avalia, pontuando que o ensino de religião nas escolas, obrigatório na Alemanha, é “tanto uma oportunidade, quanto um risco”.

“O jovem pode identificar a Igreja com a chatice da escola. Precisaríamos de uma nova concepção da presença da Igreja na vida dos jovens”.

Fonte: Diário do Nordeste