A torre muito alta, os arcobotantes esguios e o telhado de ardósia íngreme da igreja paroquial do século 19 que domina Gesté, no oeste da França, estão fadados à demolição. Como muitas outras igrejas de aldeias na França, ela é vítima de seu tamanho, sua condição e, principalmente, das preocupações com o orçamento municipal.

Embora a igreja, dedicada a são Pedro, seja possivelmente a única joia arquitetônica na cidade de 2.400 habitantes, o governo decidiu derrubá-la e substituí-la por uma nova, de manutenção mais barata.

Construído em andares para acomodar 900 pessoas, o formidável edifício de pedra está tristemente vazio desde 2006. “Por causa de seu tamanho e sua complexidade, sempre será caro de manter”, disse Jean-Pierre Léger, 61, engenheiro aposentado que é prefeito em meio período de Gesté. “Ele é vítima de seu tamanho considerável. É grande demais.”

O prefeito e a Câmara da cidade votaram por 17 a 16, dois anos atrás, pela demolição da igreja, dizendo que custaria US$ 4,4 milhões para reformá-la, contra US$ 1,9 milhão para se demolir e construir uma nova. Mas muitos concidadãos de Léger discordam, afirmando que a cidade superestimou o custo da obra de restauração.

“Rejeitamos suas estimativas de custos”, disse Alain Durand, 50, pedreiro que é tesoureiro de um movimento para preservar a igreja. “É muito político; se eles demolirem e reconstruírem, é só para combater o desemprego.”

Em toda a França, aldeias estão sendo obrigadas a fazer perguntas difíceis quanto ao destino de suas igrejas, muitas das quais se deterioram enquanto o número de paroquianos e padres diminui e o custo de manutenção cresce.

Béatrice de Andia, presidente do Observatório da Herança Religiosa, em Paris, estima que existam 90 mil igrejas na França, das quais cerca de 17 mil estão sob proteção do governo por seu valor histórico ou arquitetônico. Cerca de 10% das igrejas protegidas estão em condições perigosas, diz.

“A Igreja pode ser eterna, mas não as igrejas”, disse Andia, que fundou o observatório em 2006 para despertar a consciência sobre a situação do patrimônio religioso do país. “No passado, esses prédios eram sagrados, mas hoje não há um sentido de sagrado.” Em países como Reino Unido e Itália, as casas de culto fora de uso foram transformadas em residências, lojas ou museus.

Enquanto a identidade francesa se torna cada vez mais secular, alguns veem a demolição das igrejas de aldeias como um símbolo do colapso da fé. O reverendo Pierre Pouplard, 69, pastor da igreja paroquial de Gesté, discorda. “Não vejo conexão”, ele disse. “As pessoas gostam de sua igreja. A frequência aqui é muito grande.”

Fonte: Folha de São Paulo