O suíço Jean Ziegler, relator especial das Nações Unidas para o Direito à Alimentação, considera, em entrevista à Agência Efe, que a América Latina é o continente que demonstra ter mais consciência para o problema da fome, e expressa contrariedade ao impulso brasileiro na produção de biocombustíveis.

“Sem dúvida alguma, a América Latina é o continente mais consciente, o que mais faz para preservar esse direito básico que é poder comer todos os dias”, disse Ziegler à Efe.

Em comemoração ao Dia Internacional da Alimentação, celebrado pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) anualmente em 16 de outubro, Ziegler tornou público um relatório provisório sobre o Direito à Alimentação que será apresentado em breve à Assembléia Geral da ONU.

O texto afirma que atualmente existem no mundo 840 milhões de famintos, um número que segue crescendo. Diariamente morrem 24 mil pessoas de fome, e por causas relacionadas com a desnutrição outras 100 mil.

“Por algo que poderia ser evitado, porque segundo dados da FAO, no mundo se produz comida para alimentar 12 bilhões de pessoas, ou seja, o dobro da população mundial, e por isso o caso de cada criança que morre de fome é um assassinato”, assegurou Ziegler.

Segundo o relator especial, na luta contra “essa praga” há regiões mais ativas que outras e a América Latina se destacou por seu envolvimento direto.

No texto há um capítulo dedicado ao continente no qual se “celebra o dinamismo da região da América Latina e do Caribe em geral, e em particular a aprovação da iniciativa regional para erradicar a fome e garantir a segurança alimentar intitulada ‘Iniciativa América Latina e Caribe sem Fome'”.

“Tudo começou com a campanha eleitoral do presidente (Luiz Inácio) Lula da Silva, na qual fez destacou que a fome tinha de ser erradicada do país. Ao chegar ao poder, estabeleceu o programa Fome Zero”, afirmou Ziegler.

O relator especial explicou que, posteriormente, outros países como Guatemala, Bolívia, Peru e Uruguai instauraram programas similares que, apesar de não terem obtido resultados extraordinários, contribuíram para atenuar o sofrimento dos que passam fome.

“Depois, o Brasil se uniu ao Chile e à Venezuela e lançaram a iniciativa regional, que inclusive foi apresentada na ONU. Realmente é o continente mais consciente”, reiterou o responsável suíço, que, no entanto, não deixou de criticar o Brasil por querer expandir a produção de biocombustíveis.

“O programa Fome Zero atende a 44 milhões de pessoas. Se forem reduzidos os hectares para a produção de comida, cairá o número de pessoas que serão atendidas”, assegurou.

Ziegler é contrário à transformação em massa de plantios de alimentos em locais destinados a colheitas para a produção de biocombustíveis, porque, segundo disse, isso faria aumentar o número de famintos no mundo, além de trazer implicações econômicas.

“Esse ano o preço do trigo dobrou em seis meses, e isso é causa direta do aumento da produção e da demanda por biocombustíveis”, avaliou.

Outro dos argumentos contrários a esse tipo de produção é o de que o desemprego aumentará, aumentando o risco de crise de fome.

“Na agricultura tradicional, em cada dez hectares trabalham de sete a 11 pessoas. Na produção de biodiesel, por cada dez hectares só há um empregado”, disparou.

Por tudo isso, Ziegler propõe que a Assembléia Geral da ONU estabeleça uma moratória de cinco anos na produção de biocombustíveis, e que esse período sirva para desenvolver novas técnicas que permitam a fabricação de biodiesel a partir de produtos não comestíveis.

O relator suíço da FAO defende ainda o estabelecimento da proibição quanto à deportação de famintos no mundo.

Fonte: EFE