O presidente do Conselho Nacional da Juventude, Cláudio de Brito Aguiar, caracterizou o atual quadro cívico da juventude angolana como não sendo dos melhores.

A guerra desuniu famílias, que é o núcleo base da sociedade, causando déficit de orientação aos jovens em termos de comportamento.

A falta de respeito para com os mais velhos e, acima de tudo, para com o próximo, é produto de várias crises que o país vive, como a deslocação de jovens do interior do país para as grandes cidades, como Luanda, deixando princípios de auto-regulação da sua conduta, porque, na capital do país, absorve-se hábitos e costumes não satisfatórios.

“Ainda há uma certa crise de valores. Os próprios mais velhos nem sempre dão bons exemplos aos jovens”, afirmou o responsável do CNJ, realçando tratar-se de um assunto muito sério e que a própria sociedade deve prestar muita atenção, senão emergirá uma sociedade muito desorientada, a julgar pelos altos índices de delinquência juvenil.

As igrejas não ficaram de parte, quando Cláudio Aguiar disse que elas cresceram consideravelmente nas últimas décadas, mas, conseqüentemente, os valores cívicos decresceram em demasia, pois o número de pessoas com comportamento indigno aumentou. “Se a igreja contribui para educar moralmente o cidadão, então qual é o trabalho que elas estão a fazer?”.

Há, afirma Cláudio Aguiar, igrejas com doutrinas complicadas que incutem ensinamentos que são contra os valores cívicos, como aquelas que acusam crianças da prática de feitiçaria.
Os responsáveis por tais práticas, defende, devem ser julgados publicamente, para que as pessoas se apercebam que a coisa funciona, para além de desencorajar outros nesta direção.

Acredita que uma legião de jovens produtores de práticas anti-sociais, fazem-no porque não cresceram num seio familiar para que fossem educados convenientemente.

Já nas sociedades africanas, “refiro-me ao interior do país”, não há grandes índices de delinqüência, não há muita falta de respeito para com os mais velhos e para com o próximo, como acontece nos grandes centros urbanos”.

Daí que, diz Cláudio Aguiar, estamos diante de uma união de problemas que devemos prestar muita atenção, não somente em aspectos teóricos, mas também práticos e, se tal não acontecer, o interlocutor prognostica efeitos devastadores para as gerações vindouras.

Quanto ao desvio comportamental de indivíduos oriundos do interior, carregando na sua bagagem moral muitos valores socialmente aceitáveis, o presidente do Conselho Nacional da Juventude (CNJ) salienta que as pessoas aderem ao desvio de atitudes, talvez porque há maior tendência de se praticar o mal do que o bem.

“No interior do país, falo de mim que nasci em Malanje e cresci durante muito tempo em Ndalatando (Kwanza-Norte), a irmã da nossa mãe é também nossa mãe. O pai do amigo é também nosso pai, e o mesmo sucede com a mãe ou tia de um amigo e vice-versa. Para quem não conhece, dificilmente distingue quando é que estamos com a mãe biológica”.

Disse que, em Luanda, para o caso anterior, a pirâmide funciona de forma invertida, como prova disso é que a irmã da mãe é tratada de tia. Dessa forma, alerta Cláudio Aguiar, o vínculo afetivo não é tão forte como no interior do país, “onde muitos de nós cresceram em sociedades. Lá, quem pratica algo de errado, a vizinha ou uma outra pessoa pode fazer uma chamada de atenção”.

“Cá, em Luanda, se você empreende esta prática arranja sérios problemas, porque te dirão que o filho não é seu. Nas grandes sociedades africanas, como Luanda, as pessoas adotam muito os hábitos culturais ocidentais e isso influência muito negativamente na nossa conduta enquanto ser social”.

No meio de tanto desvio comportamental surge um outro fenômeno que, segundo o interlocutor, está intrinsecamente ligado à queda de valores cívicos. É a força da influência das “sombrias eletrônicas” instaladas em muitos terraços de edifícios e prédios da capital. Trata-se das antenas parabólicas que fazem com que as pessoas hoje estejam expostas e sob os efeitos diretos da globalização.

A educação religiosa adicionada à promiscuidade assistida em canais de TV pode ser equilibrada, assegura Cláudio Aguiar, desde que haja um monitoramento sobre o que é que os filhos mais consomem. Agora, deixar as coisas à deriva pode originar problemas de difícil resolução.

O presidente do CNJ reconheceu que não se pode descurar de um meio como a parabólica, porque, nos dias que correm, não se pode estar à margem do desenvolvimento. Aliás, como disse, é um processo irreversível. Desaconselhou a implementação de uma educação muito rígida, como acontecia antigamente, podendo criar conflitos no seio familiar.

“Mas, se houver diálogo permanente, acho que se consegue encontrar um meio termo para manter a educação dos jovens, mesmo assistindo canais de parabólica, até porque eles precisam de estar informados”.

Portanto, aconselha, para se contrapor esta evidência, nos grandes centros urbanos, a construção de um diálogo permanente a nível das famílias. Para tal, a pessoa adulta é que deve servir de modelo para os mais jovens, para que estes possam levar avante as suas vidas, praticando bons exemplos.

Focando sobre a chamada delinqüência juvenil, disse que não é somente um problema de Polícia, porque estão atacando muito este órgão de segurança interna. “É errado. A Polícia é o último topo da pirâmide, porque é um problema que deve ser tratado de uma forma multidisciplinar, com a participação dos ministérios da Educação, da Juventude e Desportos e de todos os departamentos do Estado, incluindo a própria sociedade”.

O Conselho Nacional da Juventude está a envidar esforços de modo a que as associações juvenis funcionem na realidade e que adotem políticas de apoio ao associativismo juvenil, apesar das dificuldades.

Fonte: Jornal de Angola