“Chico Xavier” e “Nosso Lar” levaram 8 milhões aos cinemas; filme sobre santa católica estreia em 270 salas.

Se há um fenômeno capaz de fazer frente ao fenômeno “Tropa de Elite 2” em 2010 é o dos filmes de fé.

Os espíritas “Chico Xavier” e “Nosso Lar” levaram quase 8 milhões de espectadores ao cinema.

Se o filme católico da temporada, “Aparecida – O Milagre”, que chega hoje aos cinemas, vender mais alguns milhões de ingressos, a tríade religiosa não terá feito nada feio nos negócios.

O contra-ataque católico foi, segundo os produtores, mera coincidência. “Aparecida”, dirigido por Tizuka Yamasaki, começou a sair do papel há três anos.

“Queríamos fazer algo sobre a fé brasileira. E a santa é quase uma síntese da brasilidade”, diz Paulo Thiago. O produtor lembra que, quando o projeto começou a sair do papel, ainda não havia os filmes espíritas no ar.

“A estreia no mesmo ano é um acaso. Agora, não sei se a existência dos três filmes é coincidência ou sinal dos tempos”, pondera Thiago. “É o Brasil da violência e da fé. É céu e inferno.” Seria, quase, deus e o diabo na terra dos blockbusters.

[b]Ricos fieis
[/b]
A exemplo do que aconteceu com “Chico Xavier” e “Nosso Lar”, que tiveram o empurrão da Federação Espírita, “Aparecida” terá o endosso da Igreja Católica.

O filme foi feito com o consentimento e o apoio do Santuário de Aparecida e todas as paróquias estão mobilizadas para divulgá-lo.

Thiago nega, porém, que a mão da igreja tenha pesado no roteiro, absolutamente fiel aos princípios católicos da família. “Eles pediram para ler o roteiro. Mas o que mais os atraiu foi o fato de o filme não ser uma pregação religiosa”, diz o produtor.

Apesar de mirar, fortemente, o público da classe C, “Aparecida” fez as primeiras aparições na tela para espectadores católicos pertencentes à classe A.

As pré-estreias paulistanas aconteceram nos shoppings Iguatemi e Vila Olímpia, com uma lista de convidados de PIB nada desprezível. “Queremos mostrar para as pessoas que Aparecida é um lugar lindo, que elas não precisam viajar para o exterior para conhecer uma basílica”, diz Silvia de Aquino, organizadora da sessão do shopping Iguatemi, amiga de Dom Damasceno, arcebispo de Aparecida.

Produzido em associação com a Paramount e aporte de um patrocinador privado -que colocou dinheiro do próprio bolso no filme, mas não quer aparecer de jeito nenhum-, “Aparecida” estreará com cerca de 270 cópias no país. As cidades do interior e as zonas mais populares receberão várias delas.

[b]CRÍTICA:
[/b]
Vazio de ideias e com excesso de clichês, filme vulgariza a fé

INÁCIO ARAUJO
CRÍTICO DA FOLHA

Certos filmes vêm junto com um ato de fé. “Chico Xavier”, caso recente, está nessa categoria: toda sua evolução conduz à reafirmação da crença segundo a qual existe um além da vida e de que até é possível travar contato com essa esfera.

“Aparecida – O Milagre”, sendo um filme da mesma categoria, começa por produzir algumas questões enigmáticas: a quem se dirige?

Quem é seu público alvo? Os crentes católicos que abandonaram a fé? Os que trocaram de religião levados pela inflação de milagres da TV? Ou a nova classe C (suposta inocente em termos de fé e estética, mas emergente para o consumo)?

Seja lá o que for, existe algo estranho nisso tudo. Hoje, as referências do filme popular vêm quase sempre da TV. “Chico Xavier” nos remete à Globo; “Nosso Lar”, às novelas da velha TV Tupi. “Aparecida” parece associar dramaturgia circense ao “cinema profissional brasileiro”.

O resultado é o seguinte: Marcos perde o pai, operário que cai de um andaime durante a construção da basílica de Aparecida do Norte. O garoto perde a fé e revolta-se contra a santa. Anos e anos depois, ressurge como empresário do ano, porém homem amargurado, separado da mulher (não divorciado, atenção), pai incapaz de se relacionar com o filho etc.

Para resumir, Marcos (Murilo Rosa) torna-se uma clicheria ambulante. Ou alguém “sem espaço interior”, para usar a definição da amante. Em troca, sobra-lhe espaço exterior: vive numa casa enorme e vazia, como convém aos materialistas bem-sucedidos. Só o mobilizam afetivamente as fotos tiradas ao lado do pai.

Os demais personagens são muito mais atraentes: a mulher, sufocada, deixa Marcos para seguir a carreira de pianista; o filho, ex-drogado, quer ser ator, mas o pai o quer industrial.

[b]Santo de casa
[/b]
Não haverá pecado em antecipar que esses ralos traços de caráter existem para preparar uma desgraça e o milagre que virá resgatá-lo. Aceitemos que o cinema seja, em certos casos, um vulgarizador da fé. Mas dentro de certos limites.

Se pretende competir com os neopentecostais em matéria de milagre, não vai dar pé: eles produzem pilhas desses, ou até melhores.

Se pretende enviar uma mensagem que fale ao tempo presente em vez de tapear fiéis incautos, seria desejável ao menos propor um roteiro em que os diálogos não se repitam de forma tão ostensiva, em que o vazio de ideias não se manifeste tanto em suas imagens.

O catolicismo parece apenas uma religião atrasada, a julgar por “Aparecida – O Milagre”. Ao não ser, claro, pela inovação teológica que consiste na introdução da figura da boa amante, na pessoa de Maria Fernanda Cândido.

APARECIDA – O MILAGRE

DIREÇÃO Tizuka Yamasaki
PRODUÇÃO Brasil, 2010
COM Murilo Rosa, Maria Fernanda Cândido
ONDE nos cines Bristol, Espaço Unibanco Pompeia e circuito
CLASSIFICAÇÃO livre
AVALIAÇÃO ruim

[b]Fonte: Folha de São Paulo
[/b]