A tese é defendida por uma dupla de arqueólogos, para quem a saga de Davi foi, na origem, a história de um “Robin Hood” que deu certo, tornando-se o fundador de uma dinastia. Pesquisadores divergem sobre real tamanho e poder do reino davídico.
(Foto: Davi e Golias, de Caravaggio)

A narrativa bíblica sobre a ascensão de Davi, o jovem pastor que virou rei de Israel, preserva memórias históricas valiosas de uma época em que chefes guerrilheiros dominavam o sul da Palestina, protegendo ou extorquindo os vilarejos da região. A tese é defendida por uma dupla de arqueólogos, para quem a saga de Davi foi, na origem, a história de um “Robin Hood” que deu certo, tornando-se o fundador de uma dinastia.

O israelense Israel Finkelstein e o americano Neil Asher Silberman têm uma visão complexa e cheia de nuanças sobre a maneira como a Bíblia narra a chegada do pastor israelita ao poder. De um lado, eles avaliam que o texto bíblico se baseia em tradições orais vindas do ano 1000 a.C., quando Davi viveu. Por outro lado, segundo eles, a arqueologia mostra que o reino de Davi teria sido pequeno e relativamente insignificante, ao contrário do que as descrições de esplendor no Antigo Testamento dão a entender.

Histórico, sem dúvida

Ao contrário do que acontece com outros personagens do antigo Israel, como Abraão ou Moisés, é relativamente difícil questionar a existência histórica de Davi. Embora não existam inscrições contemporâneas que façam referência ao rei, textos não muito posteriores achados na Palestina parecem mencionar seu nome.

O menos controverso desses artefatos é a chamada estela de Tel Dan, descoberta ao norte da Galiléia. “Estela” é o termo empregado para designar uma espécie de coluna ou placa de pedra, muito usada na Antigüidade para celebrar eventos como grandes vitórias militares. A estela de Tel Dan, de fato, tem inscrições comemorando uma vitória – só que de um dos inimigos de Israel, os reis de Damasco.

No texto em aramaico (língua “prima” do hebraico), o rei de Damasco se gaba de sua vitória sobre “Acazias, filho de Jorão, rei da Casa [dinastia] de Davi”. A data estimada do texto fica em torno de 830 a.C. Ou seja, ele registra que a dinastia de Acazias, um século depois da época em que Davi teria vivido, dizia que ele era o fundador de sua “casa”.

Memórias antigas

Finkelstein e Silberman vão além. Ao analisar a lista das cidades e vilarejos israelitas citados na história bíblica de Davi, bem como a principal cidade dos filisteus (grupo étnico inimigo dos israelitas) na narrativa, eles afirmam que esses detalhes só poderiam remontar a memórias genuínas do século 10 a.C., uma vez que a geografia da região mudou radicalmente depois disso.

O que isso tem a ver com o retrato de Davi como uma espécie de guerrilheiro, “Robin Hood” ou mesmo “Lampião” palestino? Tudo, diz a dupla. No Primeiro Livro de Samuel, conta-se que Davi é forçado a fugir de seu antigo amo, o rei Saul, que quer matá-lo por inveja. O jovem pastor vai para o deserto no território de Judá mas, como já estava famoso por matar o gigante filisteu Golias, acaba atraindo seguidores.

“E todos os que estavam em desespero, e todos os que tinham dívidas, e todos os que estavam descontentes se uniram a ele, e Davi se tornou o líder deles. E estavam com ele uns quatrocentos homens”, diz a Bíblia. A partir de então, Davi e seus guerreiros levam uma vida nômade, escapando de Saul, defendendo os vilarejos de Judá dos ataques dos filisteus mas também cobrando “proteção” por seus serviços. O ex-pastor chega mesmo a se tornar vassalo do rei Aquis de Gath, a mais poderosa cidade dos filisteus, e divide com ele os despojos de batalha que consegue.

Ora, todos esses detalhes só fariam sentido no século 10 a.C. Para começar, nos séculos após a vida de Davi, toda a região se tornou densamente povoada, o que tornaria impossíveis as fugas para o deserto retratadas no texto – o herói basicamente não teria para onde correr. Além disso, a cidade filistéia de Gath foi destruída pelo rei de Damasco no século 9 a.C. e nunca mais foi importante na Palestina. Só faria sentido retratá-la como poderosa se o autor bíblico tivesse acesso a tradições da época de Davi.

Dos ricos aos pobres

Em todas essas aventuras, Davi e seus homens são descritos como guerreiros altamente móveis e rápidos, que atacam de surpresa, saqueiam o que for possível (levando parte de sua presa para os vilarejos que protegem) e voltam para seu esconderijo em regiões ermas. Para Finkelstein e Silberman, essas características ligam Davi e companhia a um misterioso grupo social da Palestina, os apiru ou habiru.

Os apiru aparecem principalmente em cartas escritas pelos chefes das cidades-Estado de Canaã (nome antigo da Palestina) aos faraós egípcios, que dominaram a região como sua província por séculos. Como Davi, os apiru eram membros das camadas pobres da população que, por um motivo ou outro, viam-se forçados a abandonar suas comunidades e virar bandidos ou mercenários.

Vários chefes apiru acabaram reunindo tanto seguidores, e se tornaram tão bem-sucedidos como guerrilheiros, que viraram reis. Seria o caso de Davi: ao virar o protetor dos vilarejos de Judá e conquistar Jerusalém (que até então não era uma cidade israelita), o ex-pastor teria conseguido assumir o status real e criar sua dinastia.

As duas mortes de Golias

Como todo bom herói popular, Davi virou o centro de uma grande quantidade de canções e narrativas folclóricas, algumas das quais incorporadas na Bíblia. A mais famosa é sem dúvida a vitória contra o gigante filisteu Golias, morto pelo então jovem pastor com apenas uma pedra.

O curioso é que, vários capítulos depois da narrativa do confronto, o texto bíblico volta a descrever façanhas dos guerreiros que acompanhavam Davi. Um deles é um tal Elcanan, “o belemita” (ou seja, de Belém, a mesma cidade onde Davi nasceu), que teria matado um guerreiro filisteu chamado… Golias. E a descrição da lança de Golias nessa passagem é igual à que aparece na luta contra Davi.

Para alguns estudiosos, a explicação mais provável é que a história da morte do gigante originalmente tinha Elcanan como herói, mas foi “atraída” para Davi por causa da fama posterior do rei. De um jeito ou de outro, é interessante que escavações recentes no lugar onde ficava a antiga Gath (cidade natal de Golias) acharam um fragmento de cerâmica em que estão escritos nomes filisteus muito parecidos com o do gigante.

Império ou “cacicado”?

Nos últimos tempos, um dos debates mais ferozes entre os arqueólogos que estudam o antigo Israel tem a ver com o tamanho e a influência do reino de Davi. Seguindo a Bíblia, tradicionalmente se acreditava que o ex-pastor teria fundado um império abrangendo toda a Palestina, a Jordânia e regiões dos atuais Egito e Síria. O problema é que, na época em que Davi teria vivido, a região de Judá parece ter tido uma população pequena e pouco densa. Havia muitos grupos nômades e apenas umas 20 cidades ou povoados fixos, enquanto a parte norte de Israel tinha centenas de assentamentos permanentes. A própria Jerusalém não teria mais do que alguns milhares de habitantes.

Para Finkelstein e Silberman, isso significa que Davi nunca teria governado todo o povo de Israel, mas apenas a pequena Judá, ao contrário do que diz a Bíblia. Mas nem todos concordam com essa avaliação. Um dos que apostam num reino davidíco relativamente extenso e poderoso é Baruch Halpern, professor de história antiga e estudos judaicos da Universidade do Estado da Pensilvânia (EUA).

“O que você tem com Davi, e especialmente com Salomão [filho e sucessor do rei], é uma evidência crescente de intervenção central e de planejamento nos assentamentos. Temos formas parecidas de arquitetura pública, fortificações e, o que é bem significativo para o antigo Oriente Próximo, nada de templos entre essas construções”, declarou Halpern ao G1. A falta de templos é importante porque, no relato bíblico, esse é um sinal da centralização do culto a um só Deus em Jerusalém.

Halpern também diz acreditar que o reino davídico revela um aumento da alfabetização e do uso da escrita na corte. “Não era um estado gigantesco, mas era pelo menos um estado recém-nascido”, afirma ele, rebatendo a idéia de que o governo de Davi era no máximo um “cacicado” ou regime tribal.

Fonte: G1