O presidente da recém-constituída Associação Ateísta Portuguesa (AAP) lamentou, em carta enviada ao presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), o fato de a Igreja Católica ter realizado, em Fátima, uma “peregrinação contra o ateísmo na Europa”.

Na carta enviada na terça-feira, a que a Lusa teve acesso, dirigida ao “Dr. Jorge Ortiga”, presidente da CEP, Carlos Esperança refere que “no dia 13 de Maio, o senhor cardeal Saraiva Martins, pesquisador de milagres e criador de beatos e santos, presidiu em Fátima à ‘peregrinação contra o ateísmo na Europa'”.

“Sem aumento de orações ou sacrifícios”, ironiza Carlos Esperança, “podia ter incluído mais quatro continentes mas, Excelência, por que motivo a peregrinação foi ‘contra o ateísmo’ e não a favor da fé? É o espírito belicista dos cruzados que ainda corrói a mente do vetusto cardeal da Cúria?”

A carta, segundo afirma Esperança, visou saudar a eleição do novo presidente da CEP e “expor-lhe alguns pontos de vista susceptíveis de corrigir tomadas de posição com que, talvez por desconhecimento, alguns bispos têm atacado o ateísmo e os ateus, embora lhes respeite o direito de expressão constitucionalmente consagrado”.

A AAP, afirma, “revê-se na Declaração Universal dos Direitos do Homem e na Constituição da República Portuguesa, defende a liberdade, sem privilégios para qualquer religião, bem como o direito à crença, não-crença ou, mesmo, à anticrença e exige a neutralidade do Estado em matéria confessional”.

A AAP assegura que “defenderá qualquer religião que, eventualmente, venha a ser perseguida por religiões concorrentes ou por algum Estado ateu que venha a surgir, tão perverso como os confessionais”, uma vez que “o Estado deve ser neutro”.

Carlos Esperança sublinha as diferenças de pontos de vista – “dividem-nos profundas divergências de caráter filosófico e uma visão antagônica da Criação, pensando os ateus que foram os homens que criaram Deus e a ICAR [Igreja Católica Apostólica Romana] que foi o contrário” – mas, afirma, “nada justifica que não possamos ter uma relação urbana entre adversários que, jamais, devem ser inimigos”.

O presidente da AAP insurge-se contra o fato de, recentemente, o Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, ter considerado o ateísmo “o maior drama da humanidade”, contestando: “Para nós, ateus, homens e mulheres que vivemos bem sem Deus, os grandes dramas são a fome, as doenças, as guerras, o terrorismo, a pobreza, o analfabetismo e os cataclismos naturais. Nunca veríamos nas religiões ou numa corrente filosófica ‘o maior drama da humanidade’, e sabemos como as primeiras os provocaram e ainda provocam.”

Por fim, Carlos Esperança declara: “Nós, ateus, somos a favor da liberdade, da democracia, do livre-pensamento e da ciência, contra o obscurantismo, a mentira, o medo e o pensamento único. Somos contra a xenofobia, o racismo, o anti-semitismo e qualquer forma de violência ou de discriminação por questões de raça, religião, nacionalidade ou sexo.”

E convida: “Se V. Ex.ª partilhar algum ou alguns dos nossos pressupostos éticos ou filosóficos pode contar com a nossa solidariedade.”

A AAP foi oficialmente constituída na sexta-feira, 30 de Maio, em Lisboa, por cerca de meia centena de pessoas, tendo Carlos Esperança afirmado, na ocasião, que a associação “surgiu da necessidade da defesa da laicidade do Estado e de todas as correntes religiosas”.

“O direito de não ter religião, ou de ser contra, é igual ao direito inalienável de crer, deixar de crer ou mudar de crença, sem medos, perseguições ou constrangimentos”, afirma o Manifesto Ateísta, divulgado na ocasião.

Fonte: Lusa