O Orkut, site de relacionamentos mais famoso no Brasil, já foi alvo de críticas e até de inquéritos policiais e procedimentos judiciais por causa de divulgação de pedofilia, racismo e incitações a transgressões de leis, como os rachas no trânsito. Agora, o espaço virtual famoso pela liberdade de expressão nas comunidades que abriga causa polêmica por ofender religiões.

Uma delas, que na semana passada reunia 550 membros, classifica Jesus como pedófilo. A comunidade “Jesus – o 1º pedófilo do mundo” baseia suas críticas na passagem bíblica “Deixai que venham a mim todas as criancinhas”.

O organizador da comunidade deixa clara a interpretação no perfil da comunidade. Nos fóruns, que são os espaços de discussão entre os membros da comunidade, não faltam ofensas a Jesus a partir de interpretações da célebre passagem bíblica.

Na mesma linha, há comunidades que fazem interpretações sobre a sexualidade de Jesus, Maria e José. “Jesus Cristo, gay?!” é descrita como um espaço para discutir a sexualidade de Jesus. O criador da comunidade, que na semana passada tinha 711 membros, se baseia em um texto apócrifo, que os orkuteiros relacionam a um Evangelho Secreto de São Marcos.

No perfil da comunidade, os participantes descrevem o trecho: “Jesus disse ao jovem o que deveria fazer, e à noite este veio a ele com um vestido de linho sobre o corpo nu. E ficaram juntos naquela noite, pois Jesus ensinou-lhe o mistério do Reino de Deus.”

Além de caracterizar Jesus como homossexual, a comunidade “Maria P…, Jesus gay” rotula Maria como prostituta. Na mesma linha, há “José o Primeiro Corno Assumido”, que caracteriza como sinônimo de infidelidade e traição o fato de José ter permitido que Maria concebesse um filho que não era seu, mas de Deus.

Há comunidades que atacam a crença em Deus, como é o caso de “Deus bom é deus morto”; “Crente é ET”; “Deus é o caral..”; “Eu rejeito Deus”. “F…-se Jesus Cristo”, comunidade que reunia na semana passada 729 membros, critica a crença no filho de Deus, segundo a Santíssima Trindade aceita pelo Cristianismo.

Nos fóruns, além dos defensores das comunidades, é possível encontrar depoimentos de pessoas que se sentiram ofendidas pelas discussões criadas pelos participantes. Esse comportamento contribuiu inclusive para divulgar as comunidades que atacam os dogmas religiosos: muitas existem desde 2005, mas cresceram consideravelmente neste mês, depois que “orkuteiros” revoltados com a temática passaram a circular e-mails solicitando a retirada delas do ar. Por causa da campanha, algumas foram excluídas pelo próprio Orkut ou mudaram de nome, mas não de conteúdo, a fim de burlar a vigilância do site.

Repercussão

Representantes de religiões em Araçatuba criticam veementemente a utilização do Orkut para divulgação de comunidades que falam mal dos dogmas religiosos. “Eu vejo isso como uma afronta a Deus, porque Deus é o criador”, afirma o pastor evangélico da Igreja Quadrangular Etelvino Rodrigues Silva Neto, membro do Conselho de Pastores de Araçatuba.

“Não podemos obrigar ninguém a crer, mas independentemente de religião, esse comportamento é uma afronta ao cristão. Lamento muito que a mente dessas pessoas seja assim porque isso pode trazer conseqüências negativas para elas. Temos que lembrar que tudo o que se planta, colhe. Ao mesmo tempo, o comportamento dessas pessoas é uma prova de misericórdia de Deus, que faz o sol nascer para os bons e para os maus.”

O padre José Carlos Guabiraba, pároco da catedral Nossa Senhora Aparecida, defende que o Ministério Público investigue esse tipo de comunidade presente no Orkut e puna os responsáveis pelo que ele considera ofensivo. “Tudo o que se refere jocosamente às religiões é ofensivo porque a gozação feita com o sagrado é uma falta de respeito”, ressalta.

“Antes de criar essas comunidades, o internauta precisa entender que o que é sagrado para outra pessoa, mas não é para ele, precisa ser tratado com respeito. É aceitável não crer em dogmas das religiões, mas expor essa descrença da forma como ocorre no Orkut é absoluta falta de respeito. O conteúdo das comunidades comprova a ignorância de seus criadores e participantes: a passagem das criancinhas deve ser entendida no sentido da simplicidade e pureza e não tem nada relacionado à pedofilia, da mesma maneira que não há nada provado sobre a sexualidade de Jesus. Essas comunidades são formas encontradas para essas pessoas extravasarem sua miséria interior.”

O estudioso do Espiritismo e ex-presidente do Centro Espírita Bezerra de Menezes, Wilson Alves Matias, acredita que o que leva alguns internautas a atacarem as pessoas que se destacaram no plano espiritual são suas frustrações. “São criaturas infelizes, que não têm a alegria de ver na própria vida a existência de Deus”, analisa. “São pessoas materialistas, que não têm espiritualidade e não tiveram a felicidade de sentir que houve uma pessoa maior responsável pela vida.”

Crime

As ofensas aos dogmas religiosos praticados pelos “orkuteiros” nas comunidades ofensivas às crenças podem ser caracterizadas como crime, segundo o delegado e professor de Direito Penal do Unitoledo (Centro Universitário Toledo), Vilson Disposti. Os autores das comunidades e das mensagens dos fóruns violam o artigo 208 do Código Penal no que diz respeito a vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso. “Vilipendiar é aviltar ou menosprezar”, explica Disposti. “Nesse caso, a referida conduta atinge publicamente ‘o sentimento de religiosidade’ dos adeptos da religião ultrajada.”

O delegado explica que o Direito Penal brasileiro protege tanto o sentimento religioso como a liberdade de culto e seus respectivos atos e símbolos. “A vítima, nesse caso, é a coletividade de seus seguidores, enquanto a ação penal é pública incondicionada”, ressalta.

As leis previstas no Código Penal podem ser aplicadas no caso de crimes virtuais. A diferença é que o meio pelo qual foi praticado não é o físico, mas o virtual, embora o crime seja o mesmo. Além da proteção jurídica do Código Penal, a Constituição Federal, em seu artigo 5º, assegura aos cidadãos a liberdade de culto religioso.

Justiça

O MPF (Ministério Público Federal) em São Paulo já instaurou mais de 160 procedimentos para investigar crimes virtuais praticados por meio do Orkut, principalmente ligados a pedofilia e racismo. Também já solicitou à Justiça que determine a quebra de sigilo de dados ao Google.

Quando o Google é notificado, em geral retira a página polêmica do ar, o que destrói a prova do crime e dificulta a punição do usuário. Há 15 dias, o Ministério Público e o Google iniciaram uma batalha sobre essas ações judiciais. No entanto, o Google afirma que não tem como indicar os dados dos usuários para facilitar as investigações. Nesta semana, o MPFdeu entrada em ação civil pública para obrigar a Google Brasil Internet Ltda. – ligada à americana Google Inc., proprietária do Orkut – a pagar multa diária de R$ 7,6 milhões e indenização por dano moral coletivo no valor de R$ 130 milhões. O MP argumenta que a empresa vem descumprindo, reiteradamente, decisões da Justiça brasileira. Em último caso, requer o fechamento da empresa.

Serviço

Os usuários do Orkut podem denunciar os crimes virtuais dentro do próprio sistema, graças a ferramentas que a rede disponibiliza. Outra opção é recorrer a entidades civis que atuam no combate aos crimes na Internet. Uma delas é a Safernet, que recebe denúncias de forma anônima por meio do site www.denunciar.org.br.

Fonte: Folha da Região