Aos 38 anos, Ricardo Silvestre iniciou o processo para deixar de ser batizado e de fazer parte da Igreja Católica. O patriarcado diz que, por ano, há cerca de seis pedidos destes em Portugal.

Ricardo Silvestre tinha um ano quando foi batizado e 13 anos quando percebeu ” que não queria ter nada a ver com o Deus vingativo da Bíblia”. Mas só este ano, aos 38, resolveu formalizar a separação e “anular” o seu batismo. O processo é simples, mas, segundo adiantou ao DN o Patriarcado de Lisboa, são poucos os pedidos de cisão, não ultrapassando os seis por ano.

“Fui até à igreja de Alcabideche, onde fui batizado quando tinha um ano, entreguei a carta ao padre e pedi a opinião dele. Primeiro ficou estupefato, depois revelou incompreensão e finalmente enfado, uma irritação cordial”, conta o técnico superior de desporto.

Ricardo fez tudo como mandam as regras e até resolveu descrever o seu processo de apostasia (separação com a igreja) num site (ver caixa) para servir de exemplo. Com resultados. “Nos últimos dias já quatro pessoas me disseram que iniciaram o processo”, conta.

O primeiro passo foi pesquisar os documentos do Vaticano que explicam a apostasia e o chamado actus defectionis (ato de ruptura). Depois escreveu a carta que entregou na paróquia onde foi batizado. A missiva também pode ser enviada para a respectiva diocese, indicando data e local do batismo, mas a Igreja só avança se conseguir confirmar que o pedido é da própria pessoa, explica o cônego Manuel Lourenço, que trata destes processos no Patriarcado de Lisboa: “Ou a pessoa vem ela própria ou envia uma assinatura reconhecida.”

O cônego diz que à diocese de Lisboa chegam poucos pedidos destes. “De Portugal apenas uns cinco ou seis por ano. Da Alemanha temos cerca de 10 em mãos, por causa dos impostos”, conta. Isto porque naquele país a filiação numa Igreja implica o pagamento de um imposto que o Estado desconta e depois passa à respectiva organização. Como em Portugal não há implicações deste tipo, as pessoas não se dão ao trabalho de formalizar a saída, explica. As que o fazem, não dizem porquê. “Há pouco tempo recebemos uma carta em que a pessoa explicava que se tinha convertido ao budismo, mas a maior parte não diz nada. Pode ter a ver com a entrada em outras organizações, como a maçonaria”, explica o sacerdote.

Ricardo Silvestre resolveu fazê-lo porque é um “ateu militante” – uma dedicação que surgiu depois de assistir a uma conferência sobre a teoria do “desenho inteligente”.

“Achei que era um elogio à ignorância. Tudo o que não entendo explico com a intervenção de Deus”, conta. Por outro lado, “não queria continuar a fazer parte dos 80% da população portuguesa que a a igreja diz representar”. Sobretudo porque “a Igreja tem posições desagradáveis e tenta influenciar a opinião pública e os políticos”, diz. Para os crentes, o batismo nunca pode ser anulado já que é um selo divino. Por isso é que “as crianças só devem ser batizadas quando existe esperança de que sejam educadas na fé cristã”, explica o cônego Manuel Lourenço.

Mas Ricardo não é crente e por isso aguarda que a qualquer momento chegue à sua mão um averbamento (aprovado pelo patriarcado) no seu registro de batismo a confirmar que já não faz parte da Igreja, acrescentando a frase em latim Defectio ab Ecclesia catholica actu formali.

Fonte: DN Portugal