Pais e alunos muçulmanos do ensino público francês estão cada vez mais fazendo pedidos de caráter religioso, que os professores deveriam rejeitar com base no caráter laico do Estado, segundo um relatório oficial.

O Conselho Superior para a Integração (CSI) apontou crescentes problemas com alunos de ascendência estrangeira que se recusam a estudar matérias relacionadas ao Holocausto, às Cruzadas e à evolução, que exigem refeições “halal” (permitidas pelo islamismo) e “rejeitam a cultura francesa e seus valores.”

“Está ficando difícil para os professores resistirem às pressões religiosas”, disse o estudo, cuja versão preliminar foi publicada no fim de semana pelo Journal du Dimanche. O relatório final será apresentado ao governo em novembro.

“Deveríamos agora reafirmar o secularismo e treinar os professores para lidar com problemas específicos ligados ao respeito a esse princípio”, afirma o texto.

A rígida separação entre Igreja e Estado na França relega a religião à esfera privada, ideia cada vez mais contestada pela minoria muçulmana do país, a maior da Europa – 5 milhões de pessoas, numa população total de 65 milhões de franceses.

O relatório, que abordou várias questões envolvendo alunos de ascendência estrangeira, não cita números, mas diz que os problemas aparecem com frequência em audiências do CSI.

O estudo diz que os professores têm sido contestados ao falarem sobre temas como as religiões mundiais, o Holocausto, a guerra da França na Argélia, o conflito entre Israel e os palestinos e as ações militares dos EUA em países islâmicos.

“Os professores regularmente descobrem que os pais muçulmanos se recusam a que seus filhos aprendam sobre o cristianismo”, diz o texto. “Alguns acham que isso equivale a evangelização.”

“O antissemitismo”, acrescenta o relatório, “surge durante cursos sobre o Holocausto, com piadas inapropriadas ou recusa em assistir a filmes (sobre campos de concentração)”. “As tensões com frequência surgem de alunos que se identificam como muçulmanos.”

Durante o mês islâmico do Ramadã, prossegue o estudo, alguns alunos muçulmanos intimidam colegas que não fazem jejum. Meninos muçulmanos costumam intimidar boas alunas, apontadas como “colaboradoras” dos “franceses sujos”. Algumas meninas pedem dispensa da educação física para não se misturarem aos meninos.

O relatório sugere que as escolas insistam na coeducação, na igualdade de direitos e no respeito mútuo.

“Ser cidadão francês significa aceitar contestações às próprias opiniões (…), este é o preço a pagar pela liberdade de opinião e expressão. Precisamos lembrar que o crime de blasfêmia não existe na França desde a Revolução Francesa?”, diz o relatório.

[b]Fonte: O Globo
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