Sair, paquerar, ir a shows, cinema e até mesmo bares. Ao contrário do que a maioria pensa, a galera evangélica também se diverte bastante, curtindo os programas da mesma maneira que o restante dos jovens, com apenas algumas diferenças: nada de álcool, cigarro ou sexo durante o namoro.

Dançar, brincar, encontrar amigos, conhecer novas pessoas, enfim, se divertir. Que jovem não gosta disso? Apesar de muitos acreditarem que essas atividades só podem ser bem aproveitadas se acompanhadas de bebidas alcoólicas ou outras drogas, uma boa parte da galera mais nova vem mostrando que, para curtir a vida, o que importa é estar disposto a desfrutar de momentos de alegria e diversão sem que seja preciso se contaminar com a falsa felicidade tão comum no mundo atual.

E é assim que uma grande parte da juventude cristã tem feito para se divertir e chamar a atenção de outras pessoas, através de festas e eventos, conhecidos geralmente como “baladas gospel” (programações evangélicas voltadas especificamente para o lazer e o entretenimento).

Mesmo possuindo uma característica diferente das reuniões evangélicas tradicionais, ou seja, fugindo do padrão habitual dos cultos em igrejas, esse tipo de evento é denominado, por organizadores e até mesmo pela maioria dos freqüentadores, como uma estratégia de evangelismo que visa levar a mensagem de Jesus Cristo de uma maneira mais divertida e diferenciada. O produtor Wellington Júnior – um dos responsáveis pelo Ministério Gospel Night – defende esta idéia: “Nossos eventos são uma estratégia. É muito mais fácil levar um amigo que não conhece a Jesus numa festa para dançar e curtir uma boa música do que convidá-lo para um culto de domingo”.

O Ministério Gospel Night já existe há 10 anos e, de acordo com Wellington, o projeto tem obtido frutos positivos quanto ao evangelismo. “Somos realistas: o nosso público vai ao evento para se divertir, mas, ao contrário do que muitos pensam, não fica apenas na diversão. As pessoas sentem a presença de Deus naquele local e a sensação de estar cheio do Espírito Santo é perceptível no olhar de cada um. Ao longo desses anos, temos visto vidas sendo reconstruídas e transformadas através da alegria que vem de Jesus”, afirma. Porém, assim como toda estratégia, projetos como Gospel Night sempre dividem opiniões dentro das igrejas. Se, por um lado, existem os adeptos deste tipo de tática evangelística, por outro, sempre irá existir aquela visão mais conservadora que prefere investir em maneiras mais tradicionais.

Este é o caso do pastor Leônidas Lemos, líder da Igreja Evangélica Congregacional de Vista Alegre, em São Gonçalo (RJ). Apesar de não desprezar e nem condenar projetos com a visão do Gospel Night, ele acredita que esta forma de evangelizar não seja tão eficaz quanto pretende. “Continuo crendo que a melhor forma de evangelismo é a pregação do Evangelho individualmente. Quando junta essa idéia com shows gospel acho difícil que o jovem consiga refletir na Palavra de Deus, pois a própria música agitada aliena e faz com que a nossa atenção seja desviada para outras coisas”, explica.

Eficazes ou não, o fato é que, independentemente de resultados, esses eventos têm atraído cada vez mais os jovens cristãos e um grande número de não-evangélicos também. De acordo com uma pesquisa feita pela equipe Gospel Night, a porcentagem de jovens não-crentes que costuma estar presente nos eventos chega a 35%. Uma das coisas que colaboram muito para esse índice, segundo Wellington, é o fato de os pais se sentirem mais seguros em permitir que seus filhos participem de eventos em ambientes livres de drogas, álcool e prostituição.

A dona-de-casa Regina Vianna dá um enorme incentivo para festas como essas. Além de permitir que seus filhos Leonardo, de 21 anos, e Suelen, de 16, freqüentem as baladas gospel, ela ainda conta que costuma ir aos eventos junto com eles. “Já fui a muitas festas com meus filhos. Vemos que lá os jovens se alegram e curtem bastante. Além de acompanhá-los, me divirto muito também, e isso é muito legal. Me sinto tranqüila em saber que meus filhos estão em lugares onde tocam músicas saudáveis e evangelísticas que, muitas vezes, falam mais do que uma pregação direta da Palavra”.

Priscila Corrêa (19), Camila Dias de Oliveira, (19) e Keila Naomi Hirano (19) afirmam saber aproveitar muito bem seus momentos de lazer, sem precisar estar em uma boate ou barzinhos. Fiéis da Igreja Batista do Caminho, elas curtem passeios ao shopping. E garantem que se divertem tanto quanto a galera que acredita que somente as baladas são programas legais.

“Nossa programação realmente é mais voltada à igreja, mas costumamos sair em grupos, nos reunimos em shows gospel, onde acontece a nossa balada, igual a uma boate, mas onde não toca música secular (não evangélica)”, explicou Priscila.

“Às vezes esses eventos duram a noite toda, e também fazemos acampamentos em grupos, dormimos na igreja, onde ficamos batendo papo, como qualquer outro jovem”, complementou.

Camila lembrou que a igreja também tem um culto especial para os jovens aos sábados, onde eles se reúnem para depois curtirem a programação de lazer. Ela disse que curte ir ao cinema, porém evita assistir aos filmes que tenham conteúdo ofensivo à sua fé. “Prefiro assistir comédias e produções românticas, porque não contradizem o que aprendo nos cultos”, justificou.

Marcelo Borges (26) e Henrique Napoleão (23), ambos da Igreja do Evangelho Quadrangular, também afirmaram se divertir tanto quanto os jovens de outras religiões. “Não é porque somos evangélicos que somos retardados como as pessoas imaginam”, criticou Henrique, que toca na banda da igreja assim como Marcelo. “Vamos a bares também, e freqüentamos ambientes onde não há somente evangélicos, assim como Cristo fazia quando andava com todo tipo de pessoa”, comentou.

Marcelo disse que curte ir ao cinema, e ambos brincam, dizendo que assistem a todo tipo de filme, menos os pornográficos, que “não acrescentam nada”.

Ele afirmou ainda que os jovens precisam estar antenados ao que acontece no resto do mundo, não apenas no que ocorre dentro da sua religião. Os dois falam que na igreja há uma programação direcionada aos jovens, com encontros, passeios, eventos e festas. Além disso, eles também curtem passeios ao shopping e jogar boliche.

Ambos não bebem, mas explicam que a decisão não é uma proibição imposta pela Igreja. “Na Bíblia está escrito que não devemos pecar contra nosso corpo, e qualquer tipo de droga, como o álcool e o cigarro, são pecados que não devemos cometer”, defendeu Henrique.

Namoro

E no namoro? Rola sexo? As três meninas garantem que não, e afirmam que, caso isso ocorra, mesmo sendo considerado errado antes do casamento, os pecadores serão perdoados e continuarão a receber o apoio da Igreja.

Keila se converteu há dois anos e meio e, antes disso, já tinha um filho, que hoje está com 4 anos. Ela garantiu que, mesmo sendo mãe solteira, nunca sentiu nenhum tipo de reprovação. “Ninguém jamais me disse nada por isso, e mesmo que eu arrume um namorado agora, apesar de até já ser mãe, irei esperar para novamente ter relação sexual após meu casamento”, disse.

Marcelo e Henrique, também namoram, e sobre sexo, também são enfáticos: antes do casamento, nem pensar. Marcelo namora há cinco anos, e afirma ser virgem. “Nos dias de hoje é complicado, a tentação é muito grande, mas acredito que Deus me dá forças para continuar nesse caminho e alcançar meu propósito, que é casar virgem”, disse.

Henrique já foi casado e atualmente namora há um ano e meio. Ele comentou que, mesmo já tendo experiência sexual, não transa com sua atual namorada, porque também quer esperar o casamento. “Também quero esperar a hora correta para que isso aconteça”, finalizou.

Compromisso com a obra de Deus

Assim como em diversos grupos e comunidades, nem todos os jovens que freqüentam as “baladas gospel” estão focados em um mesmo objetivo. Muitos enxergam os eventos como apenas ambientes de lazer e entretenimento, porém, existem aqueles que mesmo gostando de curtir uma boa festa, visam ganhar almas para o reino de Deus.

Apesar de manter uma certa resistência a esse tipo de tática evangelística, o pastor Leônidas afirma que, a despeito dos métodos, o que os líderes ministeriais precisam fazer é orientar os jovens para que eles sejam comprometidos com a obra de Deus. “A mensagem pregada dentro dessas festas pode ter uma grande influência na vida dos jovens ou pode apenas servir para entreter”, afirma o pastor, que garante, ainda, que o resultado obtido vai depender de como essas estratégias serão trabalhadas na vida do jovem.

Wellington pensa da mesma forma. Não é à toa que a equipe do Gospel Night não é formada apenas por organizadores de eventos e animadores de festa. De acordo com ele, o grupo é formado também por pastores e líderes que, além de ministrar aos jovens, realizam um trabalho de acompanhamento daqueles que se converteram durante algum evento.

O produtor admite que uma estratégia nova requer algum tempo para adquirir reconhecimento, mas garante que resultados positivos são o que não faltam. “Nesses 10 anos de Gospel Night, os jovens e adolescentes cresceram e muitos hoje são adultos e já constituíram família. Já tivemos diversos casos de jovens que se tornaram pastores e líderes de ministério. Vale a pena investir nesse público”.

Fonte: Elnet e O Liberal