Os bancos islâmicos, aqueles que seguem as leis do Islã, sofreram menos do que os bancos convencionais durante a crise econômica internacional que assolou o mundo a partir do final de 2008.

O tema foi parte das discussões do Seminário de Finanças Islâmicas, que ocorreu nesta segunda-feira (4/10), na Fipecapi (Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Autariais e Financeiras), na capital paulista, direcionada a empresários e executivos de bancos.

Um dos motivos para que as instituições islâmicas sentissem menos a crise, segundo especialistas, foi a expansão mais controlada do crédito praticado no sistema de finanças islâmicas. Uma liberação exagerada de financiamentos, especialmente imobiliários, deflagrou o início dos problemas em um dos mercados mais afetados, os Estados Unidos. No país, as perdas chegaram a 855 bilhões de dólares um total de 4 trilhões de dólares no mundo todo, segundo o economista do ISTI (Islamic Research and Training Institute), Salman Syed Ali.

Essa expansão mais controlada do crédito acontece porque, em bancos islâmicos, a instituição financeira corre o mesmo risco que o cliente. Em função disso, a liberação do dinheiro é mais criteriosa. Os bancos islâmicos também investem apenas em coisas reais e não especulam. “Não se investe em nada que não existe, então não tem especulação, você não aposta no preço, na venda de alguma coisa que nem existe ainda”, diz a diretora da Área Internacional do Banco ABC Brasil, Angela Martins, integrante da comissão organizadora do evento.

Por exemplo, não se aposta em mercado futuro ou se usa dinheiro não recebido ainda para fazer investimentos. “Você só compra e vende coisa que já existe, com dinheiro que você já tem, então você evita o ‘gambling’, essa coisa do jogo, do risco como um jogo”, explica Angela. Os bancos islâmicos, no entanto, também sentiram a crise porque investem, por exemplo, em imóveis, que sofreram depreciação na crise, e no mercado de ações.

Como é um sistema casado, no qual só é emprestado o dinheiro real, que o banco realmente tem, vindos, por exemplo, de depósitos e investimentos, o choque de uma crise é menor. “O choque é distribuído por todo o sistema”, explica Ali. Além deste, os bancos islâmicos seguem, de acordo com listagem feita por Ali na Fipecafi, outra série de princípios, levando em conta seus objetivos, de ser um sistema de inclusão e de ajudar a aliviar a pobreza no mundo.

Segundo dados divulgados pelo chefe de treinamento e especialista financeiro do IRTI, Mabid Al Jarhi, a perspectiva é que os bancos islâmicos tenham 1,3 trilhões de dólares em ativos em 2020. No ano passado, por exemplo, a cifra estava em 226 bilhões de dólares. O crescimento, na verdade, já vem se acelerando nos últimos anos, já que, no ano 2000, os ativos dos bancos islâmicos eram apenas 27 bilhões de dólares. Enquanto que entre 2000 e 2009, os ativos de instituições islâmicas avançaram 27%, os de bancos convencionais cresceram 14% no Golfo.

O IRTI, ao qual pertencem os especialistas que falaram na Fipecafi, faz parte do Islamic International Bank, que é um banco de fomento. A instituição tem vários braços, como a área de pesquisa e treinamento, que é o IRTI, e ITFC (International Islamic Trade Finance Corporation), para financiamento ao comércio. O diretor geral do IRTI, Bambang Brodjonegoro, afirmou que para o Brasil o banco pode, por exemplo, financiar exportações para países membros da organização ou mesmo assegurar operações em nações muçulmanas.

“O Brasil é uma grande economia, é uma das maiores economias do mundo, a maior na América do Sul, uma economia que cresce rápido. Existe potencial para as finanças islâmicas”, afirmou Brodjonegoro. Financiamento de projetos, no entanto, só é feito para países membros da instituição financeira.

O seminário foi promovido pela Fipecafi em conjunto com o Departamento de Contabilidade e Atuária da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP (Universidade de São Paulo) e teve apoio do Banco ABC do Brasil, controlado pelo Arab Banking Corporation, e do Instituto Humanitare. Além do encontro desta segunda-feira, voltado para empresários, haverá outro seminário, nesta terça-feira pela tarde, para acadêmicos.

[b]Fonte: Opera Mundi[/b]