Bartolomeu INo dia 13 de julho, dezenas de cientistas, teólogos, líderes religiosos e ambientalistas, altos funcionários de organismos internacionais, representantes do governo brasileiro, sertanistas, chefes indígenas e jornalistas dos mais influentes órgãos da imprensa ocidental chegarão a Manaus para participar de um evento único neste quarto de século em que a preservação da floresta tornou-se preocupação planetária. Bartolomeu I, patriarca de Constantinopla, é o incentivador de evento inédito sobre religião, ciência e ambiente

Alguns dos convidados virão de lugares distantes, como Irã, Azerbaijão e Noruega.

Embarcados no navio Iberostar e numa flotilha auxiliar, ou voando em aviões charter, durante seis dias eles visitarão zonas de desmatamento, áreas de conflito e reservas ecológicas, conversarão com representantes de comunidades locais e verão o encontro das águas e as belezas da paisagem tropical. Nos longos deslocamentos pelo rio, ouvirão palestras e participarão de debates em cinco reuniões plenárias de um simpósio sobre religião, ciência e meio ambiente intitulado Amazonas, Fonte de Vida.

Tão inédita quanto a iniciativa será a presença no Brasil de seu inspirador e principal animador: Sua Santidade Ecumênica Bartolomeu I (foto), o patriarca de Constantinopla e líder espiritual de 250 milhões de cristãos ortodoxos gregos espalhados pelo mundo.

Dono de um vozeirão que o faz parecer mais alto do que na verdade é, Bartolomeu irradia autoridade e simpatia nas audiências públicas no Phanar, o nome do antigo bairro grego de Istambul que hoje identifica o enclave que abriga o palacete de madeira onde o patriarca vive e trabalha, uma escola para os filhos da minoria grega (hoje reduzida a cerca de 3 mil pessoas), e a pequena catedral ortodoxa de São Jorge, com seus ícones e o altar dourado. Trata-se de um dos poucos templos que restaram do esplendor do cristianismo na antiga Bizâncio.

Dimitrios Arhondonis nasceu em 1940, na ilha de Imvros, na Turquia. Na década de 60, durante o Concílio Vaticano II, viveu em Roma, onde doutorou-se em Teologia pelo Instituto Pontifício Oriental da Universidade Gregoriana. O fato de ter cidadania turca contribuiu para sua elevação ao patriarcado em 1991, quando tinha apenas 51 anos: esta é uma das condições impostas pelas autoridades de Ancara, depois da guerra entre a Turquia e a Grécia, entre 1919 e 1922, para a permanência em Istambul do líder máximo dos gregos ortodoxos.

Plataforma ecológica

Foi graças ao apoio de fundações financiadas pelos membros da Igreja Ortodoxa em todo o mundo que Bartolomeu transformou a defesa do meio ambiente na plataforma a partir da qual ganhou espaço na cena internacional e afirmou a presença de sua igreja, seguindo um caminho parecido ao que seu amigo João Paulo II abriu ao tornar-se o primeiro papa superstar.

A escolha do tema, iniciada por seu antecessor, o patriarca Demétrio, veio naturalmente, como ele explicou em uma rara entrevista, que concedeu ao Estado no sábado retrasado. Em seu gabinete de móveis clássicos, mas sem pompa, ele trabalha atrás de uma mesa forrada de documentos, sob o olhar de uma imagem da Virgem Maria e a reverente atenção de uma dúzia de diáconos, padres e outros prelados que formam sua corte. “Se amamos o Criador, é nosso dever proteger sua criação”, disse ele.

O foco na proteção dos rios e dos mares adotado por Bartolomeu resultou do exame da Bíblia. “A água é um elemento sagrado, é fonte da vida.” Embora mantenha-se oficialmente longe da política, até porque o governo turco nega a existência do patriarcado ou da Igreja Ortodoxa como entidade jurídica, a utilidade prática do assunto parece óbvia: trata-se de um dos poucos temas de política pública que não geram atritos entre o patriarcado e Ancara e entre turcos e gregos.

Desde praticamente o início de seu patriarcado, Bartolomeu realiza seminários ecológicos durante o verão no antigo Mosteiro da Santíssima Trindade, na ilha de Halki, onde funcionou um instituto teológico fechado pelo governo turco há 35 anos. Nos anos 90, com a assistência de um dos cardeais da Igreja Ortodoxa, o metropolitano John de Pergamon, um teólogo e estudioso da ecologia, o patriarca lançou uma iniciativa que busca na religião, na ciência e na ecologia orientações e respostas para a preservação ambiental.

Organizado sob o co-patrocínio do secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, o simpósio da Amazônia será o sexto da série e o primeiro fora da Europa, depois dos realizados nos Mares Egeu (1995), Negro (1997), Adriático (2002), Báltico (2003) e no Rio Danúbio (1999).

Processo de reaproximação

A iniciativa, que já rendeu a Bartolomeu o apelido de Patriarca Verde, tornou-se parte do complexo e tortuoso processo de reaproximação da Igreja Ortodoxa com a Igreja Católica, separadas há mais de 1.500 anos. Em 2002, durante o simpósio no Adriático, João Paulo II e Bartolomeu I assinaram uma declaração conjunta sobre ética ambiental. No ano passado, em apoio a uma outra iniciativa do patriarca, a conferência episcopal da Itália adotou o dia 1º de setembro como um dia de orações pela preservação ambiental.

O papa Bento XVI, que visitará Bartolomeu no dia 30 de novembro para celebrar o Dia de Santo André – o apóstolo fundador da igreja cristã de Bizâncio e o mais venerado pelos ortodoxos -, escalou o cardeal Roger Etchegaray, presidente emérito da Comissão de Justiça e Paz do Vaticano, para representá-lo. O patriarca espera que o cardeal traga uma mensagem do papa sobre a preservação da Amazônia.

Ciente da influência da Teologia da Libertação em setores da igreja na região de conflito na Amazônia, o papa, que combateu sistematicamente esse tipo de militância em seus tempos de cardeal do Santo Ofício, contará com a atenta presença do cardeal d. Geraldo Majella Agnelo, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que acompanhará o líder da Igreja Ortodoxa, do começo ao fim, em sua histórica peregrinação ecológica pelo maior país católico do mundo.

O ponto alto do evento será uma cerimônia ecumênica de bênção das águas do Amazonas, no dia 16. Esperado para o encerramento do simpósio, em Manaus, no dia 20, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda não confirmou presença.

‘Se amamos o Criador, devemos amar a criação’

Patriarca fala sobre lado espiritual da ecologia e
reconhece dificuldades do diálogo de reconciliação com a Igreja Católica

Pelos cálculos do arcebispo metropolitano da igreja ortodoxa grega de Buenos Aires, monsenhor Tarasios, que responde por toda a América do Sul, há entre 20 mil e 50 mil cristãos ortodoxos no Brasil. Segundo o site www.ortodoxiabrasil.com, eles se concentram em 12 Estados e no Distrito Federal. Há uma dúzia de paróquias na cidade de São Paulo e outro tanto no interior do Estado.

Apesar da escassez de seu rebanho no Brasil, Bartolomeu I, o Patriarca Ecumênico de Constantinopla, possui laços de família com o País. Três de seus primos, filhos de um irmão de seu pai, vivem em São Paulo – e dois deles o encontrarão pela primeira vez durante a visita que fará ao Amazonas, no mês que vem.
Não será a primeira viagem de Bartolomeu I para a América Latina. Suas andanças pelo mundo já o levaram a Cuba e ao México. Abaixo, trechos da entrevista que concedeu ao Estado:

Por que seu interesse pela Amazônia?

Sabemos que há uma preocupação mundial com a Amazônia. Queremos conhecer e aprender. E queremos oferecer nossa perspectiva e contribuir para o diálogo que leve à solução dos problemas. O simpósio em si não trará nenhuma solução. Mas acreditamos que a participação de especialistas de diferentes disciplinas e países, bem como de formuladores de políticas, facilitará o entendimento, pois trará ao debate as dimensões científica e espiritual da ecologia.

O que o senhor espera alcançar com o simpósio?

Nosso objetivo não é resolver todos os problemas ecológicos, mas sensibilizar as pessoas, criar consciência ecológica. É obrigação sagrada da igreja proteger a criação, de acordo com a vontade do Criador. Essa é a razão, em última análise, pela qual o Patriarcado Ecumênico decidiu abraçar esse trabalho. Achamos que é nosso dever. Atuamos em colaboração com a Igreja Católica, que é a maior das denominações cristãs, o que aumenta a eficácia dos nossos esforços e seu impacto junto aos fiéis. Se dizemos que respeitamos e amamos o Criador, temos então que respeitar e amar sua criação.

O Brasil é o país que tem o maior número de católicos batizados. A reconciliação das Igrejas Católica e Ortodoxa acontecerá um dia?

Será um longo caminho. Temos um fosso criado por uma separação de nove séculos e meio. Iniciamos um diálogo há quase 50 anos, quando o papa Paulo VI e o patriarca Atenágoras tiveram um encontro histórico na cidade de Jerusalém, ao final do Concílio Vaticano II. Levantaram-se as excomunhões mútuas que as igrejas haviam decretado. O diálogo teológico começou depois da visita do papa João Paulo II ao Patriarcado, em 1979. No entanto, a comissão mista formada para estudar os pontos de diferenciação dos dois sistemas, com o objetivo de chegar a um consenso, entrou em crise depois de 20 anos de trabalho.

Por quê?

O problema gira em torno das igrejas ortodoxas do movimento uniata, que seguem Roma. Elas mantêm os paramentos e ritos litúrgicos das igrejas orientais mas estão unidas a Roma. Os ortodoxos acreditam que os chamados ritos orientais foram uma invenção de Roma para fazer proselitismo junto aos cristãos do leste. Os nossos irmãos católicos romanos dizem aos ortodoxos que não são teologicamente educados, que não há diferença substancial entre as igrejas, que a diferença está só nas roupas, e que se trata apenas de mencionar o nome do papa de Roma na liturgia, porque somos todos o mesmo povo.

E não é assim?

O entendimento ortodoxo é que esse não é um argumento honesto e sincero. Depois do colapso do comunismo, várias das igrejas uniatas que seguem Roma passaram a desfrutar de mais liberdade e assumiram atitudes agressivas em relação aos ortodoxos. Houve uma reação forte e o diálogo parou. Em setembro passado convoquei os representantes de todas as igrejas ortodoxas e propus a retomada do diálogo, que foi aceita. Roma também concordou. Em setembro próximo haverá, em Belgrado, a primeira reunião plenária da comissão de 30 teólogos ortodoxos e 30 teólogos católicos. O tema será a estrutura da igreja.

Qual é a maior diferença?

É a posição hierárquica do bispo de Roma na estrutura geral da igreja cristã e isso nos leva ao principal obstáculo em nossas deliberações. Nós, ortodoxos, dizemos que o papa tem a primazia do amor e da honra. A Igreja Católica afirma que o papa tem também a primazia de jurisdição sobre toda a igreja cristã e pretende que isto seja um direito divino, enquanto que nós entendemos que se trata de um direito criado pelos homens.

Uma minoria ainda sem direitos na Turquia

Os ortodoxos acreditam ser os herdeiros da igreja fundada no ano 33 pelos apóstolos, os primeiros seguidores de Jesus Cristo. Em contrate com as comunidades religiosas que nasceram da Reforma no século 16, não definem sua igreja em contraposição aos católicos romanos. A separação entre as grandes igrejas cristãs do Ocidente e do Oriente ocorreu cinco séculos antes de Lutero e Calvino rebelarem-se contra a autoridade do papa e fundarem as primeiras congregações protestantes. Aconteceu em 1054, quando o bispo de Roma rompeu com os quatro outros patriarcas originais dos cristãos – de Constantinopla, Alexandria, Jerusalém e Antioquia.

A tomada de Constantinopla pelos otomanos, em 1453, deu início ao longo declínio do mais influente patriarcado oriental. Rebatizada Istambul, a cidade abrigava mais de 50 mil ortodoxos gregos no início do século passado. Após a guerra de 1919-1922 entre a Grécia e a Turquia e as trocas forçadas de populações entre os dois países, eles hoje não passam de 3 mil numa cidade com população superior a 15 milhões.

A despeito do virtual desaparecimento dos ortodoxos num país de 70 milhões de muçulmanos, o Patriarca de Constantinopla é reconhecido pelos demais chefes das igrejas ortodoxas gregas como o “primeiro entre iguais” e é freqüentemente chamado a resolver disputas.

Foi o que ocorreu com a recente destituição do patriarca de Jerusalém, confirmada por um sínodo ortodoxo convocado por Bartolomeu. Líder de uma igreja que não é oficialmente reconhecida, não tem existência jurídica na Turquia e está proibida de ter bens, o patriarca é assistido por padres e diáconos que viajam regularmente para a Grécia e retornam como turistas, com vistos de três meses, para não violar as leis de imigração e evitar retaliações.

Se for confirmada, a entrada da Turquia na União Européia poderá iniciar uma era mais promissora para Bartolomeu e seu rebanho. “Será bom para as minorias e será bom para o patriarcado, pois passarão a valer os critérios da comunidade européia”, diz ele.

Fonte: Estadão