Progressistas católicos acusam João Paulo II de não ter a mesma intransigência para com os padres acusados de abusos sexuais.

João Paulo II não tinha apenas amigos. Alguns setores progressistas católicos não o perdoam por terem sido afastados da Igreja com rigor e consideram que o futuro beato não teve a mesma intransigência para com os padres acusados de abusos sexuais nem com os eclesiásticos que acobertaram tais crimes.

Durante sua designação em 1978, Karol Wojtyla chegou a dar um leve sopro de esperança aos meios progressistas: poderia esse papa moderno e caloroso se abrir às ideias surgidas depois de 1968?

No entanto, mesmo opondo-se às concepções retrógradas dos tradicionalistas, ele se revelou resistente ao “relativismo”, um homem da defesa da doutrina frente às “derivas” posteriores ao Concílio Vaticano II.

Ele viveu a opressão do regime comunista na Polônia e temia sobretudo a influência marxista na Igreja. Estava impregnado das concepções morais conservadoras de sua Igreja eslava.

Uma primeira ducha fria caiu rapidamente sobre os progressistas: depois de janeiro de 1979, na conferência dos bispos latino-americanos em Puebla, no México, João Paulo II, pedindo sempre por justiça social, desaprova a “Teologia da Libertação” e repudia os bispos “vermelhos”, apesar de seus esforços para criar comunidades de base viva.

Uma frente se forma contra ele: o papa é criticado por ser recebido por ditadores. Sua frieza em relação ao bispo progressista de São Salvador, monsenhor 0scar Romero, que seria assassinado em 1980, foi marcante. “Você deve se esforçar para ter uma relação melhor com o governo de seu país”, advertiu João Paulo II a Romero em 1979.

Ele pune os teólogos que pediam reformas na Igreja e o abrandamento de sua moral sexual. Pregava castidade, fidelidade, em plena epidemia de Aids na África, recusando o recurso aos preservativos.

Movimentos de contestação se formaram como o “Nós somos a Igreja”, exigindo o casamento dos padres e a ordenação de mulheres.

Durante o processo de beatificação, teólogos franceses denunciaram também “a oposição tenaz a reconsiderar regras de ética sexual contraditórias, limitadas e insustentáveis”, “a ignorância da expansão do concubinato no clericato”, “a recusa reiterada de um verdadeiro debate sobre a condição das mulheres na Igreja”.

A outra frente era a dos tradicionalistas: monsenhor Bernard Fellay, superior da Fraternidade São Pio X, vê no papa uma espécie de anticristo em razão de sua abertura a outras religiões no encontro de Assis em 1986. Segundo ele, a beatificação é um “tsunami” contra a fé.

Karol Wojtyla é também criticado por não querer ver os comportamentos criminosos, principalmente de pedofilia, dentro da Igreja, e por não ter tomado medidas firmes quando o escândalo começou a eclodir nos Estados Unidos em 2000.

“João Paulo II confiava nos outros e vigiava muito pouco aqueles que o seguiam. Estava tão concentrado na mensagem a ser transmitida que nem sempre governou a Igreja de maneira total”, admite o vaticanista Marco Tosatti.

Seu grande apoio ao cardeal austríaco Hans-Hermann Gröer, apesar das acusações de pedofilia, foi muito criticado. Além disso, pesou o fato de não ter dado atenção às primeiras acusações contra o fundador dos Legionários de Cristo, o mexicano Marcial Maciel, recebido em audiência em 2004 e culpado de vários abusos sexuais.

“Quando um novo movimento da Igreja, como os Legionários, era capaz de alinhar diante do Papa 80 seminaristas zelosos e obedientes para serem ordenados padres, o Papa pôde apenas aplaudir”, ressalta uma fonte da Igreja. Segundo esta fonte, João Paulo II recusou-se a abordar os escândalos também por temor que fossem calúnias.

Karol Wojtyla continuou marcado pelas diversas campanhas lançadas contra a Igreja pelo regime comunista na Polônia do pós-guerra.

[b]Fonte: Jornal do Brasil[/b]