O Papa Bento XVI dirigiu um apelo neste domingo aos católicos dos Estados Unidos, pedindo que olhem unidos para o futuro e superem os egoísmos e diferenças que separam a sociedade americana em comunidades.

“O rosto da comunidade católica em vosso país mudou consideravelmente”, disse na homilia de uma missa realizada no estádio de beisebol dos Yankees, em Nova York, à qual assistem cerca de 60.000 fiéis.

Em sua missa de despedida antes de voltar a Roma, o pontífice fez uma análise da evolução da Igreja Católica nos Estados Unidos, elogiando a variedade étnica da sociedade americana e suas aspirações de liberdade.

“Pensemos nas contínuas ondas de imigrantes, cujas tradições tanto enriqueceram a Igreja na América”, apontou.

No entanto, Bento XVI insistiu que os Estados Unidos deveriam superar as diferenças comunitárias que com freqüência dividem o país, canalizando essa aspiração de liberdade individual de maneira adequada aos valores cristãos.

“Todos os sinais externos de identidade, todas as estruturas, associações e programas, por válidos ou mesmo essenciais que sejam, existem em última análise unicamente para sustentar e defender uma unidade mais profunda que, em Cristo, é um dom indefectível de Deus à sua Igreja”, afirmou.

Mais cedo, Bento XVI prestou homenagem às 3.000 vítimas dos atentados de 11 de setembro de 2001, rezando em sua memória.

“Te pedimos que por Tua bondade concedas a luz e a paz eternas a todos os que morreram aqui”, disse o Papa após ter se ajoelhado por alguns minutos em silêncio no local da tragédia.

Bento XVI rezou por aqueles “que heroicamente socorreram os primeiros, nossos bombeiros, policiais, serviços de emergência e as autoridades portuárias, e todos os homens e mulheres inocentes que foram vítimas desta tragédia simplesmente porque vieram aqui para cumprir com seu dever”.

O sumo pontífice orou diante da área onde ficavam as Torres Gêmeas do World Trade Center, no sul de Manhattan.

Os ataques, praticados paralelamente ao do Pentágono em Washington com aviões seqüestrados por suicidas, deixaram cerca de 3.000 mortos e paralisaram os centros nevrálgicos financeiro e militar dos Estados Unidos.

“Alivie também a dor das famílias que ainda sofrem e de todos os que perderam seus entes queridos nesta tragédia. Dai-lhes força para continuar vivendo com valentia e esperança”, rezou o santo padre.

Posteriormente, o Papa, que vestia batina cruzada branca, conversou com alguns familiares das vítimas que compareceram à breve cerimônia, antes de deixar o local no “papamóvel”.

Bento XVI é o primeiro papa a visitar o local. “A visita do Papa é muito importante para famílias como a minha, que nunca recuperaram os corpos dos seus parentes”, explicou à AFP Sally Regenhard, que perdeu um filho em 11 de setembro de 2001.

Segundo Regenhard, “o Ground Zero é um cemitério para mais de 1.100 vítimas que nunca foram encontradas”. O restante foi identificado graças ao paciente trabalho dos médicos legistas, que tiveram que recorrem a exames de DNA.

Assim como seu antecessor João Paulo II, Bento XVI condenou com veemência o terrorismo, embora o Vaticano rejeite alguns métodos utilizados pelos Estados Unidos para combatê-lo, que incluem a tortura.

Durante sua visita, o sumo pontífice se reuniu em Washington com o presidente George W. Bush e pronunciou um discurso na sede da ONU em Nova York dedicado à defesa dos Direitos Humanos.

Não se sabe exatamente os assuntos abordados no encontro entre o Papa e Bush, mas um comunicado comum divulgado ao término do encontro confirmou que os dois chefes de Estado pelo menos mencionaram o tema terrorismo.

“Mencionaram a necessidade de se lutar contra o terrorismo com os meios apropriados, respeitando a pessoa humana e seus direitos”, indicou o comunicado, dando a entender que o Papa expressou a Bush sua posição contra o recurso à tortura para a obtenção de informações dos detidos em Guantánamo ou no Iraque.

Além de ser o primeiro Papa a visitar o “Ground Zero”, Bento XVI, que completou 81 anos na quarta-feira, também foi o primeiro pontífice em celebrar uma missa na catedral de Nova York e a visitar uma sinagoga nos Estados Unidos.

O Pontífice manifestou várias vezes nos Estados Unidos seu mal-estar pelo escândalo envolvendo milhares de sacerdotes pedófilos que abusaram de crianças e expressou seu apoio moral ao clero, cuja imagem foi fortemente afetada.

O escândalo veio à tona em 2002 com informações de que entre 4.000 e 5.000 sacerdotes haviam abusado sexualmente de cerca de 14.000 crianças e adolescentes durante as quatro últimas décadas nos Estados Unidos.

O Papa fará sua viagem de retorno a Roma após a missa no estádio dos Yankees, que encerrará sua visita de seis dias, oitava viagem apostólica do sumo pontífice fora do Vaticano desde sua nomeação há três anos para o trono de São Pedro.

Fonte: AFP