Praticamente anônimo, o arcebispo emérito (aposentado) africano Emmanuel Milingo desembarcou no Brasil na sexta-feira para uma viagem que inclui quatro capitais e deve terminar no dia 10 de abril.

A discrição da visita chama a atenção porque ele é uma das figuras mais controvertidas do mundo religioso. Já conhecido por conduzir rituais de exorcismo, Milingo ganhou ainda mais notoriedade quando decidiu casar-se, em 2001. Desde então, dedica-se a uma cruzada internacional pelo fim do celibato dos padres.

“O homem que não se casa não usufrui daquela coisa preciosa e secreta que pertence a ele e que só pode ser encontrada na sua mulher. O mesmo vale para a mulher que não se casa. A pessoa solteira é como se fosse deficiente”, disse ele ontem à tarde a uma pequena platéia de menos de 40 pessoas – a maioria homens que trocaram o sacerdócio pelo casamento – reunida num salão de festas no bairro de Pinheiros, em São Paulo.

Milingo, de 76 anos, veio ao Brasil acompanhado de sua mulher, a acupunturista coreana Maria Sung, 28 anos mais nova que ele. O casamento foi realizado pelo polêmico reverendo Sun Muying Moon. Eles hoje vivem em Washington, nos EUA.

Na reunião de ontem, o religioso respondeu a perguntas da platéia, num inglês carregado de sotaque traduzido por um intérprete. Maria recebeu uma pergunta sobre seu casamento. Ficou ruborizada. “Eu sempre quis um marido que tivesse fé em Deus. Deus me deu o arcebispo Milingo. Estou muito feliz”, respondeu ela, em coreano.

Milingo se tornou bispo em Zâmbia, seu país natal, no sul da África, quando tinha apenas 39 anos. Sempre foi visto com preocupação por conduzir cerimônias de exorcismo. A Santa Sé decidiu transferi-lo para o Vaticano, onde acreditava que poderia mantê-lo sob controle. Apesar de seu casamento ter ocorrido em 2001, a gota d’água para a excomunhão veio no ano passado, depois que ele tornou bispos quatro padres casados.

Mesmo assim, Milingo ainda se veste como bispo, considera-se como tal e diz que nunca deixou de ser católico. Todo dia celebra uma missa aberta em sua própria casa. “Não creio em excomunhão”, diz ele, frisando que não tem raiva do Vaticano. “Minha cruzada não é contra a Igreja. Respeito muito o papa, que representa Cristo na Terra. Rezo um rosário pelo papa todos os dias.”

Segundo o arcebispo aposentado, sua cruzada é para que os padres que decidiram se casar não se sintam culpados. “Não quero que morram cheios de remorsos. Eles têm de seguir o que a consciência lhes diz. É por meio da nossa consciência que Deus nos fala quais são as coisas certas a fazer.”

O movimento Padres Casados Já, fundado pelo religioso africano, diz ter 150 mil seguidores no mundo.

Exorcismo em São Paulo

Neste sábado, Milingo celebrará o casamento de um padre num hotel em Brasília. Depois, seguirá para Mato Grosso e para a Bahia.

Antes de ir embora para os EUA, voltará a São Paulo para um ritual de exorcismo – segundo os organizadores da viagem, será uma “missa de cura”, ainda sem data certa. “A Igreja tem dificuldade para falar do diabo e do inferno. Por isso nunca me entenderam”, explica Milingo.

Fonte: Estadão