O documento votado pela 5ª Conferência-Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, em maio, foi alterado pela presidência do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam) antes de ser entregue ao papa, em 11 de junho.

As mudanças mais relevantes referem-se às Comunidades Eclesiais de Base (Cebs), núcleos de fiéis ligados à Teologia da Libertação com grande atuação pastoral e ideológica no continente nos últimos 40 anos. O texto divulgado pelo Vaticano, com a aprovação de Bento XVI, contém mais de 200 emendas feitas pelo cardeal chileno Francisco Javier Errázuriz Ossa e pelo bispo argentino Andrés Stanovnik, respectivamente presidente e secretário-geral do Celam na época.

‘Não sei quem alterou, mas quero saber, pois não é a primeira vez que isso ocorre’, protesta o cardeal Geraldo Majella Agnelo, arcebispo de Salvador e primaz do Brasil. D. Geraldo foi um dos presidentes da Conferência de Aparecida, ao lado do cardeal Errázuriz e do cardeal Giovanni Battista Re, prefeito da Congregação para os Bispos, que entregaram o documento final a Bento XVI. ‘Eu pensei que estava levando o original’, declarou ao Estado, garantindo que, até onde sabe, as mudanças não foram de iniciativa de Roma ‘pois o papa respeitaria o que os bispos decidiram’. O cardeal brasileiro defende o restabelecimento da versão original.

O atual presidente do Celam, d. Raymundo Damasceno Assis, eleito em uma assembléia do episcopado latino-americano em Havana, em 10 de julho, acha difícil anular o texto oficial depois de ele ter sido aprovado por Bento XVI e distribuído, em espanhol, às 22 conferências nacionais do continente. Abaixo-assinados e manifestos de teólogos e religiosos que denunciaram a adulteração exigem a volta da versão de Aparecida. Em resposta às reclamações, o cardeal Errázuriz, arcebispo de Santiago, escreveu uma carta-circular, na qual diz ter encaminhado a questão a seu sucessor e sugere que não se fale mais do assunto.

‘Daríamos uma grande alegria ao demônio se nos ocupássemos tanto das mudanças que ocorreram no texto final de modo que o mal-estar conseguisse eclipsar a maravilhosa experiência de Aparecida e suas grandes orientações pastorais’, adverte.

Ao apresentar o texto em Cuba, o cardeal Errázuriz disse que as mudanças se limitavam à redação e à forma. Mas estudos comparativos feitos por teólogos e assessores que estiveram na conferência apontam mudanças que, em sua análise, comprometem o conteúdo. Os 573 artigos originais caíram para 554, com cortes e junção de parágrafos.

Segundo o arcebispo de Manaus e vice-presidente da CNBB, d. Luiz Soares Vieira, que participou do encontro em Havana, Errázuriz insistiu que as mudanças não foram substanciais. ‘O cardeal disse que, no caso das Cebs e em outras questões mais importantes, consultou os autores dos artigos votados em Aparecida.’

Após ler as explicações do arcebispo de Santiago, o padre argentino Eduardo de la Serna, um dos teólogos que apontaram as mudanças, chegou à conclusão de que o texto foi alterado pela presidência do Celam. ‘Essa mudança é uma violação do texto, feita ocultamente (ninguém sabia, nada se declarou, foi preciso descobrir) e autoritariamente (sem nenhuma consulta a ninguém, sob a responsabilidade última da presidência do Celam).’

O teólogo chileno Ronaldo Muñoz enumera 34 mudanças que, em sua opinião, enfraquecem ou distorcem o texto. Uma delas refere-se à ‘opção preferencial pelos pobres’, expressão que a versão oficial mantém, mas acrescentando que ‘não é exclusiva nem excludente’. Para Muñoz, parece ter havido a preocupação de tirar a força do documento quando ele denuncia a discriminação da mulher na Igreja.

Sem comentar o conteúdo das alterações, o arcebispo de São Paulo, d. Odilo Pedro Scherer, que foi secretário-geral-adjunto da conferência, disse esperar que elas não prejudiquem a receptividade ao documento. É essa também a opinião de d. Damasceno.

A tradução brasileira do Documento de Aparecida, que seria lançada amanhã em São Paulo em edição conjunta da Paulus, Paulinas e Edições CNBB, só chegará às livrarias no fim de agosto ou início de setembro. O atraso deveu-se a ‘dificuldades técnicas’ .

Fonte: Estadão