As posições dos dois candidatos sobre o aborto acabaram dominando as discussões ofuscando as propostas de cada um para o futuro do Brasil.

Nem os problemas econômicos, nem os desafios sociais ou ambientais do Brasil: o debate em torno do aborto, inflamado pela Igreja Católica e pelas igrejas evangélicas, acabou sendo o tema central da campanha presidencial brasileira durante o segundo turno.

A discussão começou já no final do primeiro turno e é apontada pelos institutos de pesquisa como um dos principais fatores que levaram a candidata do governo, Dilma Rousseff, a não vencer a disputa já no dia 3 de outubro.

Poucos dias antes do primeiro turno, cresceram entre os setores religiosos os boatos de que Dilma era a favor do aborto. Os boatos se baseavam em entrevistas da petista quando ela ainda não era candidata, nas quais defendia a descriminalização da prática. Os boatos teriam sido determinantes para que a candidata não vencesse a eleição no primeiro turno, segundo avaliação do próprio comitê de campanha petista.

Temendo perder votos entre os eleitores religiosos, tanto Dilma como o candidato da oposição, José Serra, trataram de esclarecer suas posições sobre o tema durante o segundo turno da campanha. “Sou contra a liberação do aborto”, afirmou Serra em entrevista ao Jornal Nacional.

A petista também disse ser contra o aborto. “Cansei de repetir qual é a minha posição nessa questão do aborto. Eu, pessoalmente, sou contra o aborto, mas sei que a cada dois dias morre uma mulher nessas circunstâncias. Eu não acredito que ninguém em sã consciência recomende que se prenda essas mulheres”, argumentou.

[b]Influência da igreja
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Para o cientista político Cláudio Couto, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Dilma errou ao não se preocupar com exigências do eleitorado religioso desde o início da campanha. Ele lembrou que, em 2002, o apoio dos evangélicos foi importante para a vitória de Lula.

Já na opinião do cientista político David Fleischer, da Universidade de Brasília, a igreja errou ao levantar a questão do aborto. “O debate mostrou que a Igreja Católica não tem muita influência sobre os seus fiéis, pois Dilma continua liderando entre os católicos, tanto os praticantes como os não praticantes”, declarou à Deutsche Welle.

“E também mostrou que alguns dos evangélicos têm mais influência sobre seus fiéis do que os católicos, porque Serra pontua melhor nesse eleitorado”, complementou.

O cientista político Daniel Flemes, do instituto Giga, de Hamburgo, relativizou a importância do debate. “A comunidade evangélica dá uma grande importância aos princípios morais e religiosos dos candidatos. Mas, para os demais eleitores, esses valores são ofuscados pelos programas sociais e econômicos dos candidatos, pelos planos de criar emprego, redistribuir riqueza, diminuir a pobreza, elevar o salário mínimo e proteger o meio ambiente”, afirmou à Deutsche Welle.

Na reta final da campanha, até mesmo o Papa entrou no debate. Nesta quinta-feira (28/10), Bento 16 pediu a um grupo de bispos brasileiros que orientem politicamente os fiéis católicos, sem mencionar diretamente as eleições. “Os pastores têm o grave dever de emitir um juízo moral, mesmo em matérias políticas”, declarou no Vaticano.

[b]Fonte: DW World[/b]