A americana Hadeel al Hadidi, 24, tem um pequeno piercing no nariz e o sonho de trabalhar no cinema. Antes ela pretende estudar árabe e direito islâmico no norte da Califórnia, na que deve se tornar em breve a primeira faculdade muçulmana reconhecida pelo governo dos EUA.

De véu negro cobrindo os cabelos, jaqueta jeans e saia longa preta, Hadeel pertence à primeira turma de 15 estudantes do Zaytuna College, cujas aulas começaram faz menos de um mês na cidade de Berkeley.

Hadeel e seus colegas fazem parte da pequena, porém crescente, população de estimados 6 milhões de americanos muçulmanos. Seu pai é sírio muçulmano e sua mãe, americana convertida.

“É a minha religião desde que eu nasci, mas eu nunca fui atrás, só absorvia o que meus pais diziam. Agora, foi minha decisão de aprender, quero entender de fato o Alcorão [livro sagrado do islã]”, disse a caloura, formada em comunicação pela Universidade do Michigan.

“Depois, vou fazer uma especialização em cinema”, continua Hadeel, à espera do professor de árabe, numa das três salas de aula usadas pela escola, um modesto complexo no subsolo de um prédio de tijolos aparentes.

Na mesa do professor, três maçãs levadas pelas alunas.

O Zaytuna College, fundado por três acadêmicos de renome no país, se orgulha em se dizer a primeira faculdade muçulmana nos EUA.

Já existiram outras tentativas de instituições do gênero no país, como nos Estados de Michigan e Minnesota. Mas, segundo os fundadores do Zaytuna, essas outras escolas apenas replicavam currículos de universidades do mundo muçulmano.

“Queremos criar aqui um modelo híbrido, unindo as tradições educacionais americana e muçulmana. Isso é inédito”, disse Hatem Bazian, acadêmico palestino-americano, único que não nasceu nos EUA entre os três fundadores do Zaytuna.

“O estudante americano precisa saber trabalhar com as tendências sociais, culturais e políticas do seu país”, explicou. “Queremos formar líderes, pessoas para ajudar nas 2.000 mesquitas, 500 escolas e centenas de organizações que temos no país.”

POLÊMICA

O ano letivo começou justamente quando se discutia a construção da mesquita perto de onde foram derrubadas as torres do World Trade Center em Nova York, em 11 de setembro de 2001.

Na onda das críticas, o canal conservador Fox News acusou o Zaytuna de ser na verdade uma “escola secreta de jihadistas”. “Existe uma minoria poderosa que trabalha para demonizar os muçulmanos. O islã ensina a paz, e as pessoas do islã são generosas”, disse Hamza Yusuf, outro fundador e um dos mais populares líderes muçulmanos no Ocidente.

Yusuf, americano que se converteu ao islamismo em 1977, era o professor que recebeu as maçãs. Ao final das duas horas de aula, um grupo de estudantes se formou ao seu redor.

Entre eles estava Abdul Halim, de Detroit, que quer se formar para ser “um líder para defender minha comunidade”. Ele é um dos seis afro-americanos calouros.
A única hispânica da turma é Verônica Hernandez, 24, cujo pai é mexicano.

Ela se converteu aos 13 anos, influenciada pelo irmão mais velho. “Nunca enfrentei discriminação, mas agora sinto um pouco o olhar das pessoas, talvez com medo”, disse. “Elas não sabem a verdade de nossa religião, é ignorância.”

A colega Hadeel, que estudou em colégio católico e desde então já usava o véu, diz que é difícil ser jovem e religiosa numa sociedade cada vez mais liberal.
“Há tentações, claro, mas a vida é um teste”, disse ela, que fez o piercing num período rebelde da adolescência. “Se você não questionar, não aprende de verdade.”

[b]Fonte: Folha Online[/b]