A Câmara Municipal de Campinas (SP) aprovou uma moção de repúdio ao Ministério da Educação por ter incluído uma citação da filósofa e escritora francesa Simone de Beauvoir (1908-86) na prova do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), aplicada no último fim de semana.

Uma das questões citou o trecho do livro “O Segundo Sexo”, que diz: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico, define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino”.

A proposta foi aprovada por 25 votos favoráveis e cinco contrários na quarta-feira (28). Os vereadores querem que o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, anule a questão por “afrontar conjunto de fundamentos jurídicos e o próprio Estado Democrático de Direito”.

Idealizador da iniciativa, Campos Filho (DEM) disse que a citação é “demoníaca”. Para ele, a questão contraria a Constituição e o Plano Nacional de Educação ao incluir a “ideologia de gênero” na prova do Enem.

“Foram buscar informações com uma filósofa lá em mil trocentos e pouco para impor a nós a discussão de gênero.”

Na sessão da quarta-feira, o vereador Cid Ferreira (PMDB) considerou a citação “um desacato à sociedade brasileira”.

Na ocasião, Campos Filho, disse também que a prova do Enem “empurra goela abaixo uma situação” e que a grande maioria é favorável à lei da natureza. “Homem é homem, mulher é mulher.”

Mais tarde, questionou: “Como pode alguém ser um homem de manhã e mulher à noite?”

“Dizem que isso acontece porque as pessoas sentem uma pulsão. Mas eu digo: é preciso tomar cuidado com essa pulsão, porque isso pode te levar para a cadeia.”

O presidente do Conselho Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de Campinas, Paulo Mariante, criticou a moção e os discursos, e afirmou que o episódio soa “ridículo”.

“Qual o sentido da Câmara de Campinas se pronunciar contra o pensamento da Simone de Beauvoir? Não se tem a menor noção do ridículo. É um conjunto de vereadores oportunistas que usa a religião para se eleger. [A medida] é de um mau-caratismo e de gente desqualificada”, disse.

Mariante afirmou que Campinas, como 1,1 milhão de habitantes, se mostra tão conservadora quanto a outras cidades do Brasil.

O mesmo questionamento ocorreu na Câmara dos Deputados. Os deputados Jair Bolsonaro (PP-RJ) e Marco Feliciano (PSC-SP) usaram as redes sociais para criticar o Ministério da Educação, obrigando o ministro a se manifestar. Mercadante afirmou que a escritora deu “grande contribuição” para a condição da mulher na sociedade.

[b]OUTRO CASO
[/b]
O vereador, que é ligado à Igreja Católica, é autor de uma proposta que tenta impedir qualquer política pública que discuta a questão LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) nas escolas municipais. Ele argumenta que isso representa uma medida protetiva a crianças em idade vulnerável.

“O que queremos evitar é confundir a criança sobre a ideologia de gênero”, disse, em junho passado. O projeto de emenda à lei orgânica ainda não teve votação definitiva.

Campinas é uma das cidades pioneiras em políticas para LGBTs. Transexuais e travestis, por exemplo, podem ser chamadas pelo nome social nas escolas.

Além disso, a prefeitura mantém um centro de referência LGBT, o primeiro do país, para assistência social, psicológica, jurídica e trabalhista dos interessados.

[b]Fonte: Folha de São Paulo[/b]