O lançamento hoje da Campanha da Fraternidade, que este ano tem como tema Fraternidade e Defesa da Vida e como lema “Escolhe, pois, a vida” (Dt 30,19), reativou a polêmica sobre o aborto.

A Igreja Católica condena os métodos não naturais de contracepção e a interrupção provocada da gravidez, mesmo nos casos permitidos pela legislação brasileira. Entretanto, autoridades médicas e jurídicas defendem a descriminação do aborto, o que não significa, segundo eles, ser a favor do método. Mas acrescentam que também é necessário informar e distribuir métodos de contracepção.

“Não é uma proposta da Igreja, mas uma proposta de Deus”, afirmou o arcebispo metropolitano de Campinas, d. Bruno Gamberini, sobre o tema da Campanha da Fraternidade. “Não matarás é um dos mandamentos de Deus, que manda defender a vida em qualquer circunstância.” Porém, segundo ele, não significa uma condenação à mulher que o praticou. “Se ela se arrepende, sempre tem volta. Até para a morte tem a ressurreição.” Para explicar o motivo da existência de um grande número de abortos inseguros no País, Gamberini remeteu ao filósofo Herbert Marcuse: “Ele falava que o único prazer está se reduzindo ao sexo”.

Questionado sobre quando vê alguém defender o aborto, o arcebispo disse sentir uma “grande lástima” e informou que o tema da campanha de 2008 foi escolhido há três anos. No ano passado, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, defendeu a abertura de discussão sobre a legalização da prática. Para Temporão, o aborto tem de ser incluído em uma política de planejamento familiar.

Para o diretor do Fórum de Campinas, José Henrique Rodrigues Torres, “ninguém é favorável ao aborto”, mas “tem sido um problema de saúde pública”. Ele aprova a descriminação do procedimento. “É a forma mais adequada de se enfrentar o problema porque a criminalização, além de não salvar a vida do feto, é destrutiva porque produz danos. O aborto não deve ser tratado como crime e as mulheres punidas, presas e marginalizadas.”

Segundo Torres, a educação e o acesso aos métodos contraceptivos são as formas mais adequadas para enfrentar esse problema. A mesma opinião tem o ginecologista e obstetra Aníbal Faúndes, professor titular voluntário da Obstetrícia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador de um grupo de estudos sobre prevenção ao abortamento inseguro da Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia. “Todos são contra o aborto. A diferença é que algumas pessoas acreditam que proibindo vai resolver (o problema). Insisto que em países com leis mais permissivas, como Holanda, Bélgica e Alemanha, a taxa de aborto é cinco vezes menor que a do Brasil.”

Hoje, segundo Faúndes, em torno de 1,5 mil mulheres são internadas anualmente no Sistema Único de Saúde (SUS) em Campinas por complicações de aborto. “Sou a favor da liberação.” Por lei, o aborto legal só pode ser realizado em dois casos: quando a gravidez decorre de estupro ou quando coloca em risco a vida da mulher.

De acordo com a entidade feminista Católicas pelo Direito de Decidir (www.catolicasonline.org.br), um milhão de procedimentos inseguros são realizados anualmente no País. O abortamento inseguro é uma das principais causas de mortalidade de mulheres gestantes, provoca milhares de internações e acarreta problemas para a saúde das mulheres, principalmente as de menor poder aquisitivo.

Só em lei

O secretário de Saúde de Campinas, José Francisco Kerr Saraiva, disse que é contra o aborto, exceto nos casos permitidos em lei. A mesma posição tem a política pública municipal de saúde, que segue a orientação nacional. “Não temos política para interrupção da gravidez.

O presidente do Conselho Nacional do Laicato do Brasil, o vereador Carlos Francisco Signorelli (PT), disse que “é frontalmente contra qualquer tipo de eliminação da vida”. Para ele, o aborto é uma forma de extirpar a vida. Mas disse ser a favor de métodos de contracepção, desde que sejam para o planejamento familiar.

Fonte: Cosmo Online