Na assustadora escuridão da noite haitiana, grupos de pessoas encolhidas ao ar livre cantam canções religiosas em busca de proteção e solidariedade depois do terremoto devastador desta semana. Os cantos e as palmas, principalmente das mulheres, ecoam de morro em morro, de rua em rua, enquanto os haitianos rezam por seus mortos e pedem a Deus que lhes poupe de mais sofrimentos.

Se o onipresente canto reconforta, os gritos e soluços de crianças feridas — algumas deitadas na rua, apertando feridas ensanguentadas — lembram de forma assombrosa que ainda há muito sofrimento para ser amparado no Haiti, o país mais pobre das Américas, onde estima-se que dezenas de milhares de pessoas tenham morrido no tremor de magnitude 7,0, ocorrido na terça-feira.

“Oh, meu Deus, quem vai ajudar o meu país agora?”, dizia Manuel Deheusch, empresário haitiano que veio às pressas da vizinha República Dominicana para verificar a situação de amigos, parentes e bens.

“O mundo tem de nos ajudar agora. Não podemos resolver essa confusão sozinhos”, acrescentou ele, chacoalhando a cabeça e sussurrando os nomes de famílias cujas casas ele viu destruídas ao percorrer Porto Príncipe de carro no começo da noite.

Muitos corpos permanecem nas ruas, alguns intocados, outros cobertos por tecidos. Dois cadáveres estão bem em frente ao hotel Villa Créole, onde jornalistas e equipes humanitárias pernoitam.

“Esta é uma tarefa quase impossível”, disse um voluntário, tentando auxiliar dezenas de haitianos feridos e assustados que permanecem em frente ao hotel, também danificado pelo tremor.

SOLDADOS EM CHOQUE

Por enquanto, a ajuda emergencial parece tímida. A vizinha República Dominicana enviou alguns caminhões com ajuda e umas poucas ambulâncias, que deixaram o Haiti com sirenes ligadas, levando alguns feridos, antes do anoitecer de quarta-feira.

Na cidade, os haitianos vasculham os escombros desesperadamente, procurando entes queridos.

“A ajuda veio de fora agora porque a capacidade das organizações de ajuda dentro foi destruída”, disse Mike Stewart, diretor local da entidade Esperança para o Haiti, que montou um mini-hospital em frente ao Villa Créole. Seus funcionários atendem principalmente pacientes com fraturas e hemorragias internas.

“Dez pessoas que chegaram até nós já morreram”, disse Stewart. “Haverá mais mortes até de manhã. Precisamos operar, mas não temos equipamento. Todas as organizações de ajuda sofreram um enorme golpe, prédios destruídos, pessoas mortas, e assim por diante.”

As tropas de paz da ONU — são 9.000 soldados, sob comando do Brasil — estão nas ruas, mas parecem chocadas, sobrecarregadas e preocupadas com a sua própria situação.

“Ainda não consegui nem ligar para a minha mulher. Ela deve pensar que estou morto”, disse um militar chileno que não quis se identificar.

Ele e alguns colegas de outros países latino-americanos, usando os capacetes azuis que identificam a força da ONU, estavam sentados em uma fila de veículos — inclusive um trator, uma escavadeira e dois guindastes — diante de uma rua coberta de entulhos, que eles deveriam desobstruir.

“Por onde começamos? Olha só isso”, disse o soldado. “E imagine como está nas áreas aonde não conseguimos chegar.”

Enquanto tentam absorver a magnitude do que aconteceu, os moradores de Porto Príncipe ficam aterrorizados também pelos tremores secundários e os saques. Este repórter não viu um único policial nas ruas da capital.

Dois tremores secundários ocorreram na quarta-feira, causando gritos de terror nas ruas e fazendo as pessoas fugirem dos edifícios que continuam em pé.

Embora o Haiti já tenha tido muita violência no passado, este repórter viu uma atmosfera estoica e estranhamente calma nas ruas. Várias vezes desconhecidos lhe pediram educadamente que doasse uma garrafa de água, que era rapidamente compartilhada entre muitos necessitados.

Fonte: Reuters