Na reta final da campanha para a prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, a religião se tornou um dos temas a que os candidatos têm recorrido na acirrada disputa por uma vaga no segundo turno.

Se por um lado Marcelo Crivella (PRB) continua tentando descolar sua imagem da Igreja Universal do Reino de Deus, Eduardo Paes (PMDB) sempre procura divulgar sua ligação com a Igreja Católica. Em um material da campanha de Paes consta a Oração do Cristão na Política, que pede “a intercessão de Maria, nossa Mãe aparecida… para nos ilumine na construção de uma sociedade justa e solidária”. Em comum, todos os candidatos defendem o Estado laico e a tolerância religiosa, o que os fez participar ontem da Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa.

Realizada ontem na avenida Atlântica, em Copacabana, zona sul, atraiu candidatos à prefeitura dispostos a divulgar sua simpatia pela causa. Alessandro Molon (PT), Jandira Feghali (PCdoB), Marcelo Crivella (PRB), Fernando Gabeira (PV), Paulo Ramos (PDT) e Carlos Alberto Muniz, candidato vice-prefeito de Eduardo Paes (PMDB), percorreram a orla ao lado de católicos, evangélicos, judeus e membros de religiões afro para divulgar sua tolerância com outras crenças. Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, também participou.

Crivella tirou fotos ao lado de faixas de representantes do espiritismo e conversou com representantes de várias religiões. O candidato estava acompanhado do vice-presidente regional do PTB (partido da coligação de Eduardo Paes), ligado à Igreja Católica. Crivella se disse vítima de preconceito religioso e quis mostrar, com a participação no evento, que o voto não deve ser decidido de acordo com a religião.

“Crivella foi muito bem recebido e esteve lá para mostrar que não existe preconceito religioso por parte dele. Ao contrário, é, sim, vítima de preconceito”, disse Isaías de Zavarise, assessor do candidato.

Eduardo Paes, que divulgou na imprensa a bênção que recebeu do Papa Bento XVI, pediu que seu candidato a vice entregasse carta de apoio a Ivanir dos Santos, presidente da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, responsável pela caminhada. No documento, Paes disse que o incitamento ao ódio religioso, assim como o ódio racial, servem ao propósito da dominação. Carlos Alberto Muniz fez uma crítica velada a Crivella.

“O movimento também expressa um repúdio àqueles que tentam misturar religião e política. São instâncias que têm que caminhar separadas e se respeitar”, disse.

A presença de Marcelo Crivella na caminhada foi analisada por Molon como uma tentativa do candidato de se descolar da Igreja Universal, a qual associa a casos de intolerância religiosa.

“Crivella vem tentando dissociar-se de uma denominação que frequentemente é ligada a casos de intolerância”, disse Molon.

A candidata do PCdoB, que já enfrentou atritos com a Igreja Católica por conta de sua posição a favor da legalização do aborto, criticou a intolerância.

“A cidade não merece uma guerra santa e sua gestão não pode ser dirigida a só uma religião.”

A tolerância, porém, parece andar em falta na Vila Kenndy, na zona oeste. Durante um corpo-a-corpo de Solange Amaral, realizado ontem, o líder comunitário Jorge Azevedo, que animava os cabos eleitorais, queixou-se dos constantes atritos que têm acontecido entre partidários de Crivella e de Eduardo Paes por causa de diferenças religiosas.

“Outro dia quase saiu briga aqui na praça”, disse.

Gláucio Soares, pesquisador da FGV e do IUPERJ, explica que a participação da Igreja Católica tem se marcado pela discrição e por ser apartidária.

“Podem ter restrições a quem vote a favor do aborto, por exemplo, mas se restringe a orientar a votar com consciência. Entre os fiéis da Igreja Universal existe a idéia da tomada do poder. Há um livro do bispo Edir Macedo pregando que a Igreja Universal tem que chegar ao poder para impor o projeto cristão”, disse.

Fonte: JB Online