O cardeal Francisco Javier Errázuriz, arcebispo de Santiago, Chile, admitiu ontem que o texto definitivo do Documento de Aparecida, votado pelos bispos na 5ª Conferência-Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, em 31 de maio, foi alterado antes de ser entregue ao papa, 11 dias depois.

“O texto definitivo sofreu algumas modificações, mas são formulações que não têm a importância que lhes é atribuída agora”, disse Errázuriz, acrescentando que se trata de mudanças “mínimas”, que não alteraram o conteúdo. O texto recebeu aprovação quase unânime em Aparecida, com 127 votos a favor, 1 contra e 2 abstenções.

A adulteração do texto original foi revelada nesta semana pelo Estado, que apontou Errázuriz e o bispo argentino Andrés Stanovnik, então presidente e secretário-geral do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), como responsáveis pelas mudanças. As mais relevantes, de um total de mais de 200, referem-se às comunidades eclesiais de base (CEBs), vinculadas à Teologia da Libertação.

Ainda sem saber quem havia feito as emendas, o cardeal Geraldo Majella Agnelo, arcebispo de Salvador e primaz do Brasil, ficou indignado com a alteração do texto e pediu o restabelecimento da versão original. D. Geraldo foi um dos três presidentes da Conferência de Aparecida, juntamente com Errázuriz e com o prefeito da Congregação para os Bispos, cardeal Giovanni Battista Ré, que entregaram o documento ao papa na manhã de 11 de junho.

“Eu pensei que estava levando o texto original”, disse d. Geraldo ao Estado, observando que não era a primeira vez que isso acontecia. A mesma coisa ocorreu na Conferência de Puebla, no México, em 1979, quando o cardeal colombiano Alfonso López Trujillo, atualmente presidente do Pontifício Conselho para a Família, mexeu no documento antes de ele ser enviado a Roma.

“Não sei quem alterou o texto, mas tenho de supor que o papa sabia que houve mudanças e as aprovou” , declarou o arcebispo de São Paulo, d. Odilo Pedro Scherer, durante um debate sobre o documento do episcopado latino-americano, na 5ª Exposição Católica, no Center Norte. O Documento de Aparecida deveria ter sido lançado ontem, mas a alteração do texto atrasou a tradução do original espanhol para o português.

Segundo d. Odilo, que foi secretário-geral-adjunto da Conferência de Aparecida, a maioria das emendas foram apenas “ajustes de linguagem e adequação de palavras”, mas outras, que se referiam às CEBs e à família, foram significativas. Independentemente de saber se foram alterações boas e necessárias, advertiu o arcebispo de São Paulo, “é preciso verificar se quem fez isso tinha autoridade para fazer”.

D. Odilo lembrou que, no encerramento da Conferência de Aparecida, foi submetido à votação do plenário um texto sobre as CEBs que havia sido substituído na véspera. Ao descobrir o erro, atribuído a falhas de digitação, a presidência restabeleceu o texto que havia sido aprovado.

Versão resumida

O presidente do Conselho Nacional dos Leigos, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Carlos Signorelli, que participou da Conferência de Aparecida como convidado, anunciou que vai publicar uma tradução portuguesa do documento com a versão original.

“Vou gastar R$ 5 mil para lançar uma versão resumida do documento que todos possam entender, mas respeitando o texto votado pelo plenário”, disse Signorelli. O Conselho Nacional dos Leigos denunciou a adulteração do documento há três semanas, em carta enviada a vários bispos que participaram da conferência.

Fonte: Estadão