O secretário de Estado do Vaticano, cardeal Tarcisio Bertone, se tornou ontem o primeiro representante de um Estado estrangeiro a ser recebido pelo novo presidente de Cuba, Raúl Castro.

Ambos “examinaram o andamento das relações do Estado cubano com a Santa Sé e a Igreja Católica em Cuba” e trocaram impressões “sobre assuntos de interesse multilateral e internacional”, informou a agência oficial “AIN”.

Também participaram da conversa os vice-presidentes cubanos Carlos Lage e Esteban Lazo, o ministro das Relações Exteriores, Felipe Pérez Roque, e a chefe do escritório de assuntos religiosos do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba, Caridad Diego Bello.

A reunião com Raúl, que aconteceu na sede do Conselho de Estado, o Palácio da Revolução, em Havana, consistia no último tópico da apertada agenda que durante seis dias levou o “número dois” do Vaticano a várias cidades de Cuba, em comemoração à visita feita há dez anos pelo então papa João Paulo II à ilha.

Nesta segunda-feira, Bertone destacou que sua chegada à ilha coincidiu com “um momento especial, extraordinário”, e disse que, na sua opinião, “Raúl Castro continuará (…) com uma visão, se possível for, de desenvolvimento”, tanto em Cuba como no âmbito das relações internacionais.

Antes da reunião com o novo presidente, o enviado do papa Bento XVI celebrou uma missa para religiosos salesianos e visitou a Escola Latino-Americana de Medicina, na qual estão matriculados dez mil jovens de 30 países, muitos deles católicos.

A estudante mexicana Mariana Paredes disse à Agência Efe que era “uma honra para os estudantes” ter “a oportunidade de ver o enviado do Vaticano”, e agradeceu ainda a Cuba pela oportunidade de estudar Medicina.

Bertone se reuniu com cerca de 400 jovens do centro de ensino, e pediu a eles que no trato com os doentes não apenas “descubram as dores físicas”, como também “essas dores espirituais que, com tato e afeto, podem também aliviar”.

É a terceira visita de Bertone a Cuba – já esteve na ilha em 2001, quando era secretário da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé (Santo Ofício), e em 2005, como cardeal arcebispo de Gênova.

O cardeal declarou que agora poderia “debater, cara a cara, diversos problemas e de compartilhar várias metas” com representantes da direção do país e que “jamais” tinha podido “falar tanto com as autoridades cubanas como nesta terceira visita”, algo que considerou “importante”.

Nesta segunda, Bertone esteve reunido com o ministro de Exteriores de Cuba, Felipe Pérez Roque, e em coletiva de imprensa posterior expressou ainda seu desejo de que as relações “sigam amadurecendo mais como nestes dez anos”.

Após a reunião com o chanceler, Bertone assegurou que o bloqueio econômico que os Estados Unidos mantêm contra Cuba há mais de 45 anos é “injusto e eticamente inaceitável”.

Em uma ocorrência pouco habitual, o diário oficial “Granma” publicou um comunicado divulgado na segunda-feira pelos bispos cubanos, e no qual conclamam o novo presidente a adotar “medidas transcendentais” para atender às “ânsias e inquietações expressadas pelos cubanos”.

O enviado do Vaticano também esteve na Universidade de Havana, onde ministrou uma conferência para intelectuais e professores. Na ocasião, fez menção à necessidade de se encontrar “caminhos concretos” para que cultura e ética, igreja e sociedade, possam colaborar na construção de um mundo mais humano.

Bertone celebrou missas na Praça da Catedral de Havana, onde pediu um maior espaço para que a Igreja cubana possa ampliar sua missão, e na cidade de Santa Clara (centro), onde inaugurou o primeiro monumento público a João Paulo II na ilha.

Lembrou das mensagens do ex-papa e disse que “a família, a escola e a Igreja devem formar uma comunidade educativa onde os filhos de Cuba possam crescer em humanidade”.

O cardeal recebeu uma demonstração de fervor de católicos no Santuário de Nossa Senhora da Caridad del Cobre, padroeira de Cuba.

Fonte: EFE