O cardeal Sean Brady, 70, deu sinais nesta terça-feira de que permanece no comando da Igreja Católica na Irlanda, apesar de pedidos para que renunciasse por ter encoberto um caso de abuso sexual décadas atrás.

Brady tinha dito anteriormente que estava envergonhado pelos acontecimentos nos anos 1970, quando esteve em encontros onde crianças tiveram de assinar votos de silêncio sobre alegações de abuso contra o padre Brendan Smyth, que depois foi condenado e morreu na prisão

“Nos anos que ainda me restam como arcebispo de Armagh, estou completamente comprometido em continuar o significativo progresso que tem sido feito nos últimos anos em proteger as crianças”, disse em comunicado.

A declaração foi feita após novos detalhes de abuso terem sido divulgados por um grupo de proteção a crianças mantido pela Igreja. Brady também disse ter falado com o papa Bento 16 pedindo “apoio adicional para seu trabalho, em nível episcopal”.

“Acho que é a coisa certa a se fazer agora”, disse Brady em entrevista a uma rádio.

Ele disse ter recebido muitas cartas comentando o caso. “Algumas pessoas [foram] críticas, mas a grande maioria apoiadora. E eu fiquei muito encorajado pela quantidade de orações que me foram oferecidas.”

Brady acrescentou que sua diocese deve nomear um diretor em tempo integral para proteção das crianças, para lidar com futuras acusações e suspeitas de abuso, e reportar-se diretamente a autoridades civis.

Escândalos

Em novembro de 2009, o chamado informe Murphy, publicado depois de três anos de investigações, revelou como os chefes das dioceses de Dublin ocultaram abusos sexuais cometidos por padres e religiosos irlandeses contra centenas de crianças durante décadas.

Desde o informe, revelações de casos de pedofilia por membros do clero –que a hierarquia foi acusada de silenciar– multiplicaram-se na Europa e no resto do mundo e chegaram a atingir o próprio papa, acusado na Alemanha e nos Estados Unidos de ter acobertado casos.

O órgão encarregado da proteção da infância da Igreja Católica da Irlanda recebeu, em um ano, quase 200 novas acusações de maus-tratos cometidos por padres contra crianças.

Segundo o National Board for the Safeguarding of Children in the Catholic Church (NBSCCC), no ano concluído em 31 de março passado foi recebido um total de 197 acusações de maus-tratos, registrados em sua maioria nos anos 1950 e 1960.

As acusações estão relacionadas com 97 dioceses e 110 instituições religiosas, e 83 dos supostos autores já morreram.

Europa

Na Europa, muitas alegações de acobertamentos de abusos sexuais envolvem Munique, na época em que o papa foi arcebispo da cidade, entre 1977 e 1981. Grupos de vítimas pedem ainda informações sobre as decisões tomadas pelo papa na época em que dirigiu o departamento doutrinal do Vaticano, entre 1981 e 2005.

Na Áustria, a imprensa local noticiou casos de abusos cometidos em dois institutos religiosos nas décadas de 1970 e 1980. Na França, a diocese de Rouen informou que um de seus padres está sendo investigado por “antigos delitos contra uma criança”.

Os casos de pedofilia atingiram ainda a Holanda, onde a Igreja Católica recebeu 1.100 denúncias de pessoas que afirmam ter sofrido abusos sexuais por parte de membros do clero entre os anos 50, 60 e 70.

América

Nos EUA, as maiores autoridades do Vaticano, incluindo o então cardeal Joseph Ratzinger, teriam encoberto o reverendo americano Lawrence Murphy acusado de abusar sexualmente de 200 crianças surdas.

No Chile, Fernando Karadima Fariña, ex-pároco da Igreja do Sagrado Coração de Jesus da Floresta, de Santiago, está sendo investigado por autoridades judiciais e eclesiásticas após denúncias de abusos sexuais, segundo informações do cardeal Francisco Javier Errázuriz.

No México, o fundador da congregação Legionários de Cristo, o falecido padre Marcial Maciel, é acusado de cometer abusos contra jovens seminaristas durante décadas.

No Canadá, o ex-bispo católico Raymond Lahey, que já tinha sido acusado de armazenar pornografia infantil, está sendo processado agora por agressão sexual pela Justiça. Ele renunciou em setembro a seu cargo da diocese de Antigonish, em Nova Scotia (leste).

O Vaticano reconheceu ainda os abusos cometidos por dois monsenhores e um padre do município de Arapiraca, a 130 quilômetros de Maceió (AL). Eles foram acusados de pedofilia por integrantes de um coro e por seus familiares.

Fonte: Folha Online