A Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) lançou, no marco do Dia Internacional de Combate à Violência contra as Mulheres, lembrado neste domingo, 25, a cartilha “Temas e conversas – pelo encontro da paz e superação da violência doméstica”, contendo reflexões e auxílios litúrgicos. A cartilha define a violência contra a mulher como “pecado”.

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), a violência doméstica é a principal causa de lesões no mundo em mulheres entre 15 e 44 anos de idade. A pesquisa “Primavera já partiu”, do Movimento Nacional de Direitos Humanos, revela que 66,3% dos acusados de homicídios de mulheres no Brasil são seus parceiros.

“Infelizmente, o lar é para muitas mulheres e crianças um lugar mais inseguro do que caminhar numa estrada escura durante a noite”, escreve a psicóloga Valburga Schmiedt Streck na cartilha. Estima-se que 75% dos abusadores de mulheres e crianças sejam pessoas do círculo mais íntimo das vítimas: maridos, pais, padrastos, irmãos, namorados.

A psicóloga destaca que muitos agressores são pessoas pacíficas e bem relacionadas, mas quando estão sob o efeito do álcool se tornam violentas. Uma síntese dos resultados do Censo de 2000 mostra que no Brasil uma mulher é espancada a cada 15 segundos, totalizando 5 mil por dia, e que 13% são abusadas e estupradas pelos próprios maridos.

Na França, destaca a pastora Anete Roese na cartilha, a cada três dias uma mulher é morta pelo companheiro e na África a violência contra as mulheres passa pelas mutilações genitais. De acordo com a ONU, 130 milhões de meninas sofreram mutilações. No Afeganistão, casamentos arranjados representam de 60% a 80% das uniões.

A ONG alemã “Medica Mondiale” constata que os suicídios de jovens adolescentes diante de casamentos forçados estão aumentando. O estudo “Primavera já Partiu” arrola que a violência doméstica compromete 14,6% do Produto Interno Bruto da América Latina e 10,5% do PIB do Brasil.

“As mulheres continuam acreditando que elas apanham ‘porque não são boas o suficiente’. Assumem sozinhas os pecados da humanidade, conforme lhes foi ensinado através da culpa imposta à Eva (no relato bíblico). E acreditam que deveriam ser ainda mais submissas e obedientes”, observa a pastora Anete Roese.

Na apresentação da cartilha, o pastor presidente da IECLB, Walter Altmann, define o conceito de gênero – o conjunto de valores e informações biológicas, culturais e religiosas que ajudam a conformar a identidade, seja feminina ou masculina. Esses valores são reproduzidos ou moldados pela educação recebida na família, na escola, na igreja, pelos meios de comunicação.

Altmann destaca que a observância do mandamento do amor – amar a Deus e ao próximo como a si mesmo – leva pessoas e comunidades a confessar pecados e pedir perdão pelas relações injustas, discriminatórias e que cerceiam as potencialidades de homens e mulheres.

“A comunidade cristã, neste sentido, é um espaço privilegiado para auxiliar as pessoas a identificar e rever os valores que norteiam as relações de gênero, no dia-a-dia, com vistas a alcançar relações mais amorosas e de maior reciprocidade”, aponta.

O Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher foi estabelecido pela ONU em 1999. Ele remonta ao I Encontro Feminista Latino-Americano e do Caribe, reunido em 1981 na capital colombiana, Bogotá, quando mulheres denunciaram o assassinato das irmãs Mirabal – Patria, Minerva e Maria Teresa -, ativistas políticas assassinadas pela ditadura de Rafael Leonidas Trujillo, na República Dominicana, em 1960.

A cartilha foi elaborada pelo Fórum de Reflexão da Mulher Luterana e o grupo assessor de gênero da IECLB. O Fórum organizou para hoje, na Escola Superior de Teologia (EST), uma oficina focada na eliminação da violência contra a mulher.

Fonte: ALC