Sarah e Travis Mitchell foram condenados pela morte de bebê por causa de crença religiosa (julho 2018)
Sarah e Travis Mitchell foram condenados pela morte de bebê por causa de crença religiosa (julho 2018)

O casal Sarah Elaine Mitchell e Travis Mitchell, de 25 e 22 anos, respectivamente, se declarou culpado de homicídio por negligência e maus tratos contra a filha Ginnifer, morta poucas horas após o nascimento, em março do ano passado.

No julgamento, na segunda-feira, 09, na corte distrital do condado de Clackamas, nos EUA, a acusação mostrou que, por crença religiosa, os dois se negaram a procurar médicos durante a gestação, fato que contribuiu diretamente para a morte da criança.

A criança havia nascido às 14h55 do dia 5 de março, na casa do pai de Sarah, em Oregon City, sem a presença de médicos ou enfermeiros. Por volta das 19h, o bebê parou de respirar e faleceu.

De acordo com o relato do legista Eric Tonsfeldt, que atendeu o chamado, Ginnifer estava enrolada num cobertor, no colo da mãe que lamentava a perda.

Tonsfeldt examinou a criança e notou que ela pesava apenas 1,6 kg e que nascera prematura de 32 semanas.  Após questionar familiares, o legista descobriu que Ginnifer tinha uma irmã gêmea, Evelyn, que também corria risco de vida. Ele alertou a família, dizendo que o bebê prematuro precisava de atendimento médico de urgência, mas não lhe deram atenção.

Evelyn foi levada ao hospital pelos policiais que estavam no local e, felizmente, sobreviveu após receber atendimento médico.

Sarah e Mitchell são membros da Igreja Seguidores de Cristo, que reúne cerca de mil membros nos estados americanos do Oregon, Oklahoma e Idaho. A congregação em Oregon foi fundada pelo avô de Sarah. Com raízes no movimento pentecostal do século XIX, eles acreditam na interpretação literal da Bíblia e, dessa forma, não acreditam na medicina moderna.

“Eles acreditam que Deus cura, como todos os cristãos creem, mas dão um passo além, pensando que Deus sempre cura — afirmou o colunista Jonathan Merritt, ao “Washington Post”. — A maioria dos cristãos não interpretam as escrituras como uma promessa universal de que a fé sempre leva à cura. Mas existem alguns movimentos populares nos EUA que ainda mantém essa visão.”

Por causa das crenças religiosas, Sarah não fez acompanhamento pré-natal. Sem o ultrassom, o casal não sabia que esperavam por gêmeos e que a gestação era de risco. O parto, feito em casa, não teve nenhum acompanhamento profissional, apenas dos familiares. Nem mesmo o histórico na comunidade fez o casal procurar acompanhamento médico: segundo o promotor distrital John S. Foote, Sarah e Travis são o quinto casal processado criminalmente por não procurar atendimento médico para os filhos nos últimos nove anos.

Em 2009, a irmã de Sarah, Shannon Hickman, deu à luz um menino prematuro no mesmo quarto onde Ginnifer faleceu. Sem atendimento médico, o bebê morreu oito horas após o nascimento. Shannon e seu marido, Dale, foram condenados por homicídio em segundo grau a seis anos e três meses de prisão.

“Por muito tempo, as crianças dessa igreja têm sofrido e morrido desnecessariamente porque seus pais, como condição de suas crenças religiosas, se negaram a buscar atendimento médico”, afirmou o promotor, em comunicado. Como sinal do desejo da igreja em evitar novas mortes, a congregação concordou em escrever em sua sede que “todos na igreja devem sempre procurar atendimento médico adequado para suas crianças”. “Nós esperamos que este escritório nunca mais seja forçado a processar pais da Igreja Seguidores de Cristo por negligenciar atendimento médico para suas crianças”, concluiu Foote.

Em 1998, o jornal local “Oregonian” revisou dados legistas sobre 78 crianças enterradas no cemitério da Igreja Seguidores de Cristo entre 1955 e 1998. A análise concluiu que ao menos 21 das crianças poderiam ter sido salvas pela medicina moderna. No passado, a legislação estadual protegia membros da igreja de responsabilidade pelas mortes, seguindo a liberdade religiosa, mas desde 2008 promotores começaram a abrir processos criminais contra os pais.

Sarah e Travis foram sentenciados a seis anos e oito meses de prisão e a outros três anos de supervisão. Eles também foram obrigados a assinar uma carta que diz: “Nós deveríamos ter buscado tratamento médico adequado para nossas crianças e todos da igreja devem sempre buscar atendimento médico para nossas crianças”. Evelyn foi encaminhada para acolhimento familiar.

Fonte: Gazeta do Povo