Pesquisa realizada pelo Datafolha, pouco antes da visita do papa Bento 16 ao país, revela opiniões, hábitos e crenças dos brasileiros em relação à religiosidade. O estudo mostra a posição dos brasileiros em relação a alguns temas polêmicos, como divórcio, uso da camisinha, aborto e pena de morte.

Foram ouvidos 5700 brasileiros, a partir de 16 anos, em 236 municípios, nos dias 19 de 20 de março de 2007, e a margem de erro máxima, para o total da amostra, é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.

A análise dos resultados estratificados pela religião do entrevistado mostra que os católicos, de modo geral, têm posição parecida com a da população em geral. Essa semelhança é coerente com o fato de que a maioria dos brasileiros professa a fé católica.

Pode-se dizer que se formam ainda dois outros blocos, que se posicionam de maneira semelhante em relação à maior parte dos temas: um, formado pelos evangélicos, pentecostais e não pentecostais, e outro, por espíritas, umbandistas, adeptos do candomblé e os brasileiros que não têm religião.

Em três dos temas incluídos (divórcio, direito a mais de um casamento no religioso e uso da camisinha) a maioria dos católicos, assim como a maior parte dos brasileiros como um todo, divergem do papa Bento 16 e da Igreja Católica, que condenam o segundo casamento e a utilização de preservativos.

No caso do uso da camisinha, a taxa dos que são favoráveis à sua utilização chega a 94% do total de brasileiros, percentual idêntico ao observado entre os católicos. Entre os umbandistas, a totalidade (100%) dos entrevistados é a favor do uso de preservativos. A posição favorável também supera os 90%, ficando acima ou dentro da média, entre os espíritas (99%), os adeptos do candomblé (97%) os que não têm religião (96%), os evangélicos não pentecostais (93%) e os pentecostais (92%).

O percentual favorável ao divórcio é de 71% entre a população, como um todo, e de 74% entre os católicos. Os menos favoráveis são os evangélicos, mas, ainda assim, a maioria deles (59%, tanto entre pentecostais quanto entre os não pentecostais) apóia o divórcio. A posição favorável fica acima da média entre os espíritas (93%), os que seguem o candomblé (87%), os adeptos da umbanda (80%) e os que não têm religião (79%).

Entre os brasileiros que se declaram divorciados ou desquitados a taxa dos que são a favor do divórcio é de 81%, dez pontos percentuais acima da média. Já entre os viúvos ela cai para 59%, 12 pontos abaixo da média. Entre os casados, 67% são a favor; já entre os solteiros, essa taxa é de 75%.

O direito de que as pessoas se casem mais de uma vez no religioso recebe o apoio de 56% dos brasileiros. Mais uma vez, percentual idêntico ao verificado entre os católicos. Entre os evangélicos a posição favorável a esse direito fica ligeiramente abaixo da média, sendo de 50% entre os pentecostais e de 52% entre os não pentecostais. Os mais favoráveis a mais de um casamento religioso são os espíritas (81%), os brasileiros que não têm religião (65%), os umbandistas e os adeptos do candomblé (62% em cada segmento).

A posição favorável a que as pessoas tenham o direito de se casar no religioso mais de uma vez também fica acima da média entre os divorciados (61%) e os solteiros (60%), e fica dentro da média entre os casados (54%). Entre os viúvos, 47% são contra um novo casamento no religioso, ante 42% que são a favor.

Quando se trata da legalização da união entre pessoas do mesmo sexo, 49% dos brasileiros são contra e 42% são a favor. Os católicos se dividem: 46% apóiam a legalização (quatro pontos acima da média nacional) e 45% são contrários à hipótese. Entre os evangélicos, a oposição a que pessoas do mesmo sexo tenham direito a uma união reconhecida pela Justiça fica significativamente acima da média, chegando a 72% entre os pentecostais e a 68% entre os não pentecostais. Por outro lado, a posição favorável à legalização fica acima da média entre os espíritas (70%), os adeptos da umbanda (65%) e do candomblé (62%) e entre os que não têm religião (56%).

Entre os brasileiros que se declaram solteiros, 51% são a favor e 41% são contra a legalização da união entre pessoas do mesmo sexo. Entre os viúvos, a taxa dos que são contrários à legalização chega a 63%, posição compartilhada por 55% dos casados e por 53% dos divorciados.

Os homens são, em sua maior parte (54%), contrários à legalização, enquanto as mulheres se dividem (46% são a favor, 45% são contra). Quanto mais jovem, mais escolarizado e com maior renda familiar mensal, maior o apoio à medida, que é de 57% entre os que têm de 16 a 24 anos, de 54% entre os que têm nível superior de escolaridade e de 58% entre os que têm renda familiar mensal acima de dez salários mínimos. A taxa dos que são contra a união legal entre pessoas do mesmo sexo é de 58% (nove pontos acima da média) entre os que têm de 45 a 59 anos e chega a 71% (22 pontos acima da média) entre os que têm 60 anos ou mais. São contra, ainda, a maioria dos que têm escolaridade fundamental (58%) e a maior parte dos que têm rendimentos até dois salários mínimos (52%).

A adoção de crianças por casais homossexuais enfrenta rejeição similar: 52% dos brasileiros se posicionam contrariamente à possibilidade, ante 43% que são a favor.

Mais uma vez, os católicos se dividem a respeito do assunto, os evangélicos são majoritariamente contrários e espíritas, umbandistas, adeptos do candomblé e pessoas sem religião se posicionam em sua maioria a favor. Da mesma forma, o apoio é maior entre os mais jovens, mais escolarizados e de maior renda.

A maioria dos brasileiros (57%) é contra a eutanásia, isto é, o ato que apressa a morte de um doente incurável. São a favor 36%. Entre os católicos a posição é praticamente idêntica: 56% são contra e 37% são a favor da eutanásia. Os evangélicos são os que mais rejeitam a idéia: são contra a eutanásia 68% dos pentecostais e 64% dos não pentecostais.

Entre os que não têm religião 47% apóiam a eutanásia, ante 44% que a rejeitam, divisão parecida com a que ocorre entre os umbandistas, segmento no qual 45% são favoráveis e 48% são contrários. Posicionam-se contra a eutanásia 50% dos espíritas (taxa sete pontos abaixo da média) e 51% dos adeptos do candomblé (seis pontos abaixo da média).

A maioria dos brasileiros (65%) é contra modificações na atual lei que regulamenta o aborto, ampliando as situações em que ele seria permitido. Essa posição é compartilhada pela maioria dos católicos (percentual idêntico ao verificado entre a população), dos evangélicos não pentecostais (idem) e dos pentecostais (70%). Também acham que a lei deve ficar como está a maior parte dos espíritas (61%), dos adeptos do candomblé (55%) e dos que não têm religião (56%). Note-se, porém, que as taxas de entrevistados que pensam dessa maneira verificados nesses segmentos ficam abaixo da média nacional.

Acham que o aborto deve ser permitido em mais situações 16% e que ele deve deixar de ser crime em qualquer caso 10% dos brasileiros.

Entre os umbandistas verificam-se os maiores contrastes: 44% deles são a favor que a lei continue como está (21 pontos abaixo da média), 25% acham que o aborto deve ser permitido em mais situações (nove pontos acima da média) e para 20% a prática deve deixar de ser crime em qualquer caso (o dobro da média).

Se houvesse uma consulta à população sobre a adoção da pena de morte no Brasil, 55% dos brasileiros votariam a favor; 40% dariam seu voto contra o estabelecimento da pena capital. Entre os católicos a posição favorável à adoção da pena de morte chega a 59%, taxa quatro pontos acima da média nacional e próxima às verificadas entre os umbandistas (57%) e entre os que não têm religião (58%). Entre os evangélicos não pentecostais a posição contrária à pena de morte fica 16 pontos acima da média, chegando a 56%; entre os pentecostais essa taxa é de 51% (11 pontos superior à média). Também votariam contra a pena de morte a maior parte dos espíritas (52%) e a maioria dos adeptos do candomblé (55%).

Fonte: Datafolha