Pietro Parolin, nomeado secretário de Estado do Vaticano, ressalta que veto ao casamento de padres não é dogma.

Nomeado pelo papa Francisco para assumir o cargo de secretário de Estado do Vaticano em outubro, o arcebispo italiano Pietro Parolin, 58, disse que o celibato clerical é uma “tradição” da Igreja Católica que data dos primeiros séculos depois de Cristo e, por isso, pode ser discutido.

Parolin, que vai substituir Tarcisio Bertone como “número dois” do Vaticano, destacou que o veto ao casamento de padres não está entre os dogmas católicos –isto é, não é ponto fundamental e inquestionável da doutrina, como a ressurreição de Cristo ou a Santíssima Trindade.

“É possível falar, refletir e aprofundar estes temas que não são de fé definida e pensar em algumas modificações, mas sempre a serviço da unidade e tudo segundo a vontade de Deus”, disse, referindo-se ao celibato, em entrevista ao jornal venezuelano “El Universal” publicada domingo –ele é atualmente núncio apostólico (embaixador) do Vaticano no país.

O novo secretário de Estado, porém, afirmou que todo o trabalho da igreja para instituir o celibato não pode ser desconsiderado. “Não podemos simplesmente dizer que ele é parte do passado. É um grande desafio para o papa. Todas as suas decisões têm de ser no sentido de unir a igreja, e não de dividi-la.”

O arcebispo afirmou que a igreja precisa voltar às suas origens e rediscutir algumas regras impostas pelos homens, privilegiando o ensinamento de Cristo. Parolin descartou, no entanto, mudanças em relação à condenação da homossexualidade.

“Sempre se disse que a igreja não é uma democracia. Mas seria bom que houvesse um espírito mais democrático, no sentido de ouvir atentamente. Acredito que esse é um dos objetivos do pontificado do papa”, declarou.

As declarações do arcebispo mostram sua afinidade com o propósito de reforma da Cúria (o governo do Vaticano) anunciado por Francisco após sua eleição para o papado, em março deste ano.

O novo papa nomeou várias comissões encarregadas de tratar das mudanças na instituição. Ele deve divulgar as grandes linhas da reforma em outubro, mesmo mês da posse do novo secretário.

A sugestão de que o celibato seja debatido pode também ser fruto do deficit de padres, verificado pela igreja sobretudo em regiões como a Europa e as Américas.

No Brasil, por exemplo, embora o número de sacerdotes tenha crescido 32% entre 2000 e 2010 (último dado disponível), há apenas 22 mil padres para os quase 48 mil centros de atendimento religioso existentes no país.

[b]Fonte: Folha de São Paulo[/b]