Bandeira da ChinaAutoridades chinesas expressaram “forte desagrado” com a resolução aprovada pelo parlamento norte-americano, em 12 de junho, de condenar a crescente perseguição de religiosos na China. Atualmente, a China proíbe os missionários estrangeiros e, às vezes, o governo importuna ou aprisiona cristãos.

O porta-voz do Ministério do Exterior, Jiang Yu, disse que a resolução se baseou em “acusações sem fundamento”, segundo reportagem da agência de notícias Associated Press de 13 de junho. Jiang Yu também disse que os cidadãos chineses desfrutam de “plena e ampla liberdade religiosa, como determina a lei”.

A resolução contra a “crescente perseguição” foi tomada depois que o presidente George W. Bush convidou à Casa Branca três membros de uma rede de igrejas domésticas na China: o escritor Yu Jie, o professor de direito Wang Yi e o acadêmico Li Biaguang.

Desejo de mudança

Durante o encontro com o presidente Bush, Yu Jie disse que os cristãos chineses – particularmente os ativistas cristãos – querem promover uma mudança “através do amor e da justiça de Deus e por meios não-violentos”, segundo reportagem do “Washington Post”.

Yu Jie freqüenta a Igreja da Arca, uma igreja doméstica protestante não-registrada, que se reúne em um apartamento alugado em Pequim.

O governo chinês exige que todas as igrejas protestantes se registrem junto ao governo. Por causa do estrito controle e da adaptação da teologia para tornar-se “compatível com o socialismo”, muitos cristãos preferem se reunir em um expressivo número de igrejas domésticas clandestinas.

A Igreja da Arca originou-se de um pequeno grupo doméstico de estudos bíblicos liderado por Yu Jie e sua esposa Liu Min. A polícia invadiu a igreja em 15 de janeiro, e, desde então, a igreja teve que transferir os locais de reuniões seis vezes para escapar da importunação.

Quando Yu Jie foi convidado a visitar a Casa Branca, a polícia secreta de Pequim intimou Liu Min em seu escritório, no centro da cidade. “Eles exigiram que eu fosse imediatamente ao primeiro andar”, contou Liu Min.

Ela encontrou dois homens e uma mulher em uma lanchonete. “Eles me disseram para parar de freqüentar a Igreja da Arca, achando que se eu deixasse de ir os outros iriam se dispersar”, disse. Quando ela respondeu que não poderia obedecer à ordem, a polícia afirmou que espalharia boatos para prejudicar a reputação de seu marido. Eles também a aconselharam a se divorciar de Yu Jie. “Eu lhes disse que eles podiam fazer o que quisessem, mas que eu conhecia e confiava em meu marido”, contou Liu Min.

Um mês para pensar

Em resposta, os policiais disseram que iriam dar a ela um mês para pensar sobre isso e que eles retornariam na próxima vez que Yu Jie deixasse o país. Quando Yu Jie e o professor Wang Yi retornaram a Pequim, uma multidão de jornalistas e a polícia secreta o receberam no aeroporto. Yu Jie pode enfrentar dificuldades para viajar no futuro. No começo de maio, funcionários da alfângeda detiveram o advogado cristão Fan Yafeng quando ele tentava se juntar a Yu Jie para o encontro com o presidente Bush.

Fan Yafeng presta serviço para a Associação de Advogados Cristãos Chineses, que oferece ajuda legal para os cristãos de igrejas domésticas que são perseguidos por causa da fé. Tanto Fan Yafeng quanto Li Baiguang freqüentam a Igreja da Arca; os dois trabalharam juntos em alguns casos de perseguição, incluindo o do pastor Cai Zhuohua – condenado por “práticas comerciais ilegais” depois que um depósito cheio de materiais cristãos foi descoberto e desapropriado em setembro de 2004.

Pequim e o Vaticano

Duas outras resoluções foram aprovadas em 12 de junho. Uma censurou a China por ordenar bispos católicos sem a aprovação do papa Bento XVI, e a outra defendeu a memória das demonstrações pró-democracia da Praça da Paz Celestial, em 1989. A Associação Patriótica Católica (CPA, sigla em inglês), que é aprovada pelo governo chinês, ordenou Joseph Ma Yinglin e Joseph liu Xinhong como bispos, apesar da falta de autorização do Vaticano.

O papa imediatamente ordenou que todos aqueles que tomaram parte na ordenação fossem excomungados. O governo comunista da China rompeu os laços diplomáticos com o Vaticano quando chegou ao poder em 1949. O governo mantém controle rígido da CPA e todas as igrejas filiadas.

Existe também uma igreja católica não-registrada, ou clandestina, que rejeita as ordenações da CPA e permanece fiel ao Vaticano.

Preocupação específica

A Associação de Ajuda à China (CAA, sigla em inglês), um grupo norte-americano que monitora a opressão religiosa, divulgou um relatório em 26 de junho afirmando que as autoridades chinesas prenderam pelo menos 1.958 cristãos nos últimos doze meses.

Alguns comentaristas dizem que as prisões são uma exceção em um país onde milhões de pessoas exercem sua religião livremente, sem penalidades. O relatório da CAA indicou que havia detenções não declaradas em metade das províncias da China.

Os cristãos chineses nos centros urbanos dizem que o principal é manter a discrição e evitar provocações ou embaraços com oficiais locais. Em áreas rurais, entretanto, as autoridades são muito mais propensas a atacar a invadir cultos em igrejas domésticas, agredir pastores e interrogar membros de igrejas.

Depois de uma viagem à China, em agosto de 2005, a Comissão Internacional de Liberdade Religiosa dos Estados Unidos (USCIRF) relatou que o governo chinês continuava a violar sistematicamente o direito à “liberdade de pensamento, consciência e religião ou fé”, contrariando a Constituição do país e os acordos internacionais de direitos humanos assinados pela China.

O Departamento de Estado norte-americano designou a China como um “país de preocupação específica” (CPC) em 2005. Em 3 de maio último, quando a USCIRF anunciou sua recomendação ao Departamento de Estado para a formação da lista 2006 de CPC, a China permaneceu entre os 11 países listados.

Comentário: Com fé na China

Nicholas D. Kristof, do The New York Times

Durante a primeira metade do século 20, missionários ocidentais pipocaram em toda a China, apesar de terem convertido menos de um milhão de chineses e deixado uma pequena marca sobre o país.

Atualmente, a China proíbe os missionários estrangeiros e, às vezes, o governo importuna ou aprisiona cristãos. Ainda sim, o cristianismo está estourando como nunca na China, e alguns volúveis seguidores afirmam que ela poderá, eventualmente, ter centenas de milhões de cristão – talvez mais que qualquer outro país do mundo.

Essa explosão na religião, particularmente o cristianismo, mas também a fé bahaísta e diversos outros cultos, reflete uma nostalgia espiritual entre muitos chineses. Apesar de a China possuir uma igreja católica oficial e uma igreja oficial não-confessional protestante, que não são dissimuladas e a que as pessoas podem se unir livremente, as igrejas que mais crescem são as alternativas – normalmente evangélicas sem qualquer denominação específica – que são independentes do governo. O número total de chineses cristãos provavelmente excedeu os 40 milhões.

“Isso está cada vez mais explosivo”, disse Wang Wenjing, batizado um ano atrás e atualmente zelador da Igreja Arca, uma proeminente igreja alternativa cujo culto eu presenciei em Pequim. A Igreja Arca, uma das milhares de “igrejas caseiras”, se reúne em um apartamento alugado nas tardes de domingo. Quarenta pessoas enchem a sala de estar, regularmente clamando “Amém!”, como o pastor falou.

Depois de duas horas, achei que a cerimônia havia acabado – mas então ela se dividiu em grupos menores e prosseguiu por mais duas horas. Um dos grupos ouvia um cristão que havia sido preso e que falava sobre as miseráveis condições da prisão. A reunião também possuía uma arrecadação de roupas para os pobres.

Uma razão para o sucesso do cristianismo é que a China está passando pelo mesmo tipo de mudança social turbulenta, inclusive o alarme com o eclipse dos valores tradicionais, que frequentemente leva as pessoas à fé. E no caso da China, o maoísmo anulou as religiões tradicionais.

O crescimento do cristianismo constitui mais um desafio para o Partido Comunista ao estabelecer uma rede que ele não pode controlar facilmente. Isso já aconteceu com Falun Gong, grupo religioso que a China conteve. Membros do Falun Gong no exterior estão hoje entre os maiores antagonistas do partido e desenvolveram o software que os chineses frequentemente usam para entrar em web sites proibidos.

Num sinal de apoio, o presidente Bush se encontrou no mês passado com três cristãos chineses na igreja alternativa. Um deles, um famoso dissidente chamado Yu Jie, me levou à Igreja Arca para assistir a seu culto.

“É como na Coréia do Sul na década de 70 e 80, quando a igreja era um líder no movimento democrático”, disse Yu.

O governo chinês é linha dura com a igreja alternativa, mas de forma inconsistente e que não chega nem perto do quanto é com o Falun Gong. A pior opressão está nas áreas rurais; em Hubei, alguns anos atrás, entrevistei cristãos evangélicos que foram despidos, espancados e alvos de choques elétricos para que renunciassem a sua fé. Uma mulher foi espancada até a morte.

A Associação de Ajuda da China, grupo com sede nos Estados Unidos que monitora a repressão religiosa, afirma que pelo menos 1.958 cristãos foram detidos na China nos últimos 12 meses. Os piores abusos estão na província de Henan, onde às vezes a polícia bate e tortura os cristãos. Mas uma perseguição como esta é a exceção em um país onde dezenas de milhões de pessoas rezam de forma bastante aberta e normalmente não sofrerem qualquer penalidade.

Na metade das províncias chinesas, não há registros de detenções. As autoridades de segurança normalmente não se incomodam para invadir igrejas caseiras comuns ou espioná-las, mas a polícia faz pressão sobre aquelas que são consideradas possíveis causadoras de problemas. A Igreja Arc, por exemplo, teve de mudar de lugar por seis vezes neste ano porque a Segurança do Estado continua fazendo com que os proprietários dos imóveis evitem a igreja.

A Segurança do Estado também chamou a mulher de Yu, Liu Min, que é cristã há não muito mais tempo que ele, e a advertiu para que ficasse longe da igreja – e dele. A instituição sugeriu a ela o divórcio e, horrorizada, ela pediu para que saíssem de sua frente.

Eu a elogiei pela coragem, e ela respondeu: “Na verdade, eu tenho medo. Mas esta é a única escolha que posso fazer”.

Fonte: Portas Abertas e Último Segundo