O julgamento da Cientologia como fraude e formação de quadrilha no Tribunal Correcional de Paris, previsto para acontecer no início de 2009, reabriu no país as discussões sobre a polêmica religião, que ganhou notoriedade mundial depois que o ator Tom Cruise declarou-se praticante.

Mais do que um simples caso de suposta má-fé, o assunto suscita mais uma vez o debate sobre aquela que é a menina dos olhos da República francesa: a laicidade, ou a separação completa entre Estado e religião.

Tudo começou quando, na última segunda-feira, o advogado Olivier Morice conseguiu levar pela primeira vez na França aos tribunais o caso de uma cliente ex-praticante da Cientologia, alegando que em poucos meses, no ano de 1998, ela fora lesada em cerca de 30 mil euros na compra de livros, testes de auto-análise das variações de estado emocional e medicamentos, entre outros artigos vendidos pela igreja. O juiz Jean-Christophe Hullin autorizou o envio do processo contra a Associação Espiritual da Igreja de Cientologia ao Tribunal Correcional de Paris sob a acusação de fraude, no que pode resultar na dissolução da estrutura do culto no país. Sete cientólogos são ainda alvos de processo por exercício ilegal da Farmácia.

“Só este primeiro passo já foi um sucesso muito importante, porque é a primeira vez que alguém consegue levar esta Igreja a julgamento depois de ela enganar tanta gente”, disse Morice. O defensor, membro da União Nacional das Associações de Defesa das Famílias e de Indivíduos Vítimas de Seitas, vai pedir indenização de 1 milhão de euros e a condenação a sete anos de prisão aos acusados.

Conforme o advogado, sua cliente fora enganada ao ser convencida a comprar “livros a preços exorbitantes, sob promessas vagas e genéricas de que todos os seus problemas seriam resolvidos”. Foram 10 mil euros apenas em obras. Seis meses e um tratamento psicológico depois, a mulher, que hoje tem 42 anos, procurou o escritório de Morice querendo acionar a Cientologia na Justiça pelas perdas financeiras e morais.

Mas Danielle Gounord, porta-voz da Igreja em Paris, afirma que a ex-membro fora inteiramente reembolsada quando quis se desligar do culto, e que a recuperação do valor gasto é um direito dos participantes previsto no estatuto da Cientologia.

“Toda essa polêmica midiática é fruto de um grupo de pessoas que não aceitam que outras sejam intimamente ligadas à religião. Então eles estigmatizam as religiões como se fosse uma coisa errada. A França tem um comportamento anti-religioso que não existe em nenhum outro lugar do mundo”, disse Gounord, após três dias de insistência. “Não temo a dissolução da igreja. Se fosse fraude, por que estaria cada vez mais espalhada por tantos países? Por que teria sido reconhecida recentemente como culto logo ao lado, na Espanha?”, questiona-se a porta-voz. Segundo ela, a França tem entre 40 e 45 mil praticantes de Cientologia, a maioria moradora da capital.

Na Internet, dezenas de sites anti-sectários elencam a Cientologia como sendo uma delas – fortalecidos pelo fato de a Comissão de Investigação sobre Seitas da Assembléia Nacional a ter incluído na sua lista, em 1995. A nomenclatura, no entanto, está longe de ser consensual. Na França, é o fato de a igreja vender e submeter os praticantes a avaliações e a atividades pagas que provoca o linchamento moral do culto entre diversos setores da sociedade e o determinaria como seita religiosa. Dinheiro e religião, para os franceses, são duas coisas que não combinam.

A antropóloga Nathalie Luca, especialista em seitas e pesquisadora do Centro de Estudos Interdisciplinares de Fatos Religiosos, ligado à Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHSS), uma das escolas superiores mais respeitadas do país, é contra a condenação da Cientologia. Ela afirma que a França está desatualizada e fechada em si em termos de religião, lembrando que a Cientologia nasceu e se desenvolveu nos Estados Unidos para depois se espalhar pelo mundo.

A pesquisadora ainda levanta a questão da influência que o culto extremo à laicidade acaba exercendo indiretamente nos meios político, social e judiciário da França. Para ela, a globalização atualmente obriga os franceses a reverem este conceito, que marcou profundamente a identidade da República desde a Revolução Francesa de 1789. “A laicidade está doente”, diz.

Fonte: Terra