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CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) aprovou declaração, divulgada nesta terça-feira (1º), em que admite o apoio de “setores da Igreja” ao golpe militar de 1964.

O texto foi aprovado pelo Conselho Episcopal Pastoral (Consep) da entidade e é assinado pelo cardeal Raymundo Damasceno Assis, arcebispo de Aparecida e presidente da CNBB.

Também assinam a declaração os bispos dom José Belisário da Silva, arcebispo de São Luís do Maranhão e vice-presidente da entidade, e d. Leonardo Ulrich Steiner, bispo auxiliar de Brasília e secretário-geral da CNBB.

Em 64, com a maioria dos bispos favoráveis à deposição do presidente João Goulart, a CNBB apoiou oficialmente o golpe, conforme relatou, em entrevista ao UOL, o frade dominicano Frei Betto, que na época acompanhou de perto dos embates no interior da entidade.

“A CNBB oficialmente apoiou o golpe” disse o religioso na entrevista. “Quando veio o golpe, a Igreja agradece a Nossa Senhora Aparecida ter livrado o Brasil da ameaça comunista”, afirmou Betto.

Segundo o frade, a CNBB mudou de posição após a violência do regime se acentuar, com torturas e desparecimentos de presos políticos e perseguição a religiosos opositores aos militares.

Na declaração, embora reconheça o apoio de setores da Igreja aos militares, a CNBB não admite que apoiou o golpe enquanto entidade.

“Se é verdade que, no início, setores da Igreja apoiaram as movimentações que resultaram na chamada ‘revolução’ com vistas a combater o comunismo, também é verdade que a Igreja não se omitiu diante da repressão tão logo constatou que os métodos usados pelos novos detentores do poder não respeitavam a dignidade da pessoa humana e seus direitos”, diz o texto.

No final da nota, a CNBB cita Nossa Senhora Aparecida, a exemplo do que, segundo Betto, fez ao declarar apoio ao golpe. “Nossa Senhora Aparecida, padroeira de nossa Pátria, nos projeta com seu manto, ilumine nossas mentes e corações a fim de que trilhemos somente os caminhos da paz, da justiça e do amor.”

Veja abaixo a íntegra do texto:

DECLARAÇÃO
POR TEMPOS NOVOS, COM LIBERDADE E DEMOCRACIA

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB faz memória, neste 1º de abril, com todo o Brasil, dos 50 anos do golpe civil-militar de 1964, que levou o país a viver um dos períodos mais sombrios de sua história. Recontar os tempos do regime de exceção faz sentido enquanto nos leva a perceber o erro histórico do golpe, a admitir que nem tudo foi devidamente reparado e a alertar as gerações pós-ditadura para que se mantenham atuantes na defesa do Estado Democrático de Direito.

Se é verdade que, no início, setores da Igreja apoiaram as movimentações que resultaram na chamada “revolução” com vistas a combater o comunismo, também é verdade que a Igreja não se omitiu diante da repressão tão logo constatou que os métodos usados pelos novos detentores do poder não respeitavam a dignidade da pessoa humana e seus direitos.

Estabeleceu-se uma espiral da violência com a prática da tortura, o cerceamento da liberdade de expressão, a censura à imprensa, a cassação de políticos; instalaram-se o medo e o terror. Em nome do progresso, que não se realizou, povos foram expulsos de suas terras e outros até dizimados. Ate hoje há mortos que não foram sepultados por seus familiares.

Ainda paira muita sombra a encobrir a verdade sobre os 21 anos que fizeram do Brasil o país da dor e da lágrima. Ajuda-nos a pagar essa dívida histórica com as vítimas do regime a Comissão da Verdade que tem por objetivo trazer à luz, sem revanchismo nem vingança o que insiste em ficar escondido nos porões da ditadura.

Graças a muitos que acreditaram e lutaram pela redemocratização do país, alguns com o sacrifício da própria vida, hoje vivemos tempos novos. Respiramos os ares da liberdade e da democracia. Porém, é necessário superar a injustiça, a desigualdade social, a violência, a corrupção, o descrédito com a política, o desrespeito aos direitos humanos, a tortura… A democracia exige participação constante de todos.

Fiel à sua missão evangelizadora, a CNBB reafirma seu compromisso com a defesa de uma democracia participativa e com justiça social para todos. Conclama a sociedade brasileira a ser protagonista de uma nova história, livre do medo e forte na esperança.

Nossa Senhora Aparecida, padroeira de nossa Pátria, nos projeta com seu manto, ilumine nossas mentes e corações a fim de que trilhemos somente os caminhos da paz, da justiça e do amor.

Cardeal Raymundo Damasceno Assis
Arcebispo de Aparecida
Presidente da CNBB

Dom José Belisário da Silva, OFM
Arcebispo de São Luís do Maranhão
Vice Presidente da CNBB

Dom Leonardo Ulrich Steiner
Bispo Auxiliar de Brasília
Secretário Geral da CNBB

[b]Fonte: UOL[/b]