O colunista da BBC Brasil, Ivan Lessa, em sua coluna “Contos da Cantuária” fez um comentário sobre o líder máximo da igreja Anglicana no mundo, Rowan Williams (foto). “E o Arcebispo da Cantuária? Qual é a dele? Com todo respeito, que apito ele toca?”, diz Lessa.

Confira abaixo a íntegra do comentarista da BBC Ivan Lessa:

E o Arcebispo da Cantuária? Qual é a dele? Com todo respeito, que apito ele toca? Tudo indica que comecei mal, muito mal, hoje. O Arcebispo da Cantuária, acabei de dar uma ciscada na net, é o líder espiritual da Igreja Anglicana. Quer dizer, pega no pesado.

Ser líder espiritual é mais duro que quebrar pedra no meio da rua. Acreditem-me, eu tentei ser um. Fracasso total. A Igreja Anglicana, com suas 43 províncias espalhadas pelo mundo é autônoma, com preceitos litúrgicos próprios exclusivamente bíblicos.

A Igreja Anglicana é muito diferente de nosso candomblé ou de nossa macumba. Orienta-se pelo Livro de Oração Comum, um livro de preces danadas (perdão, Senhor) de bonitas e de origem perdida, mas depois achada, na noite dos tempos.

Por uma questão de afeto e de lealdade, duas virtudes raras hoje em dia, as igrejas anglicanas estão em plena comunhão (não confundir com a cerimônia católica) com a Sé da Cantuária, que os britânicos, com muita graça e toda propriedade deste mundo de Deus chamam de Canterbury.

Uma dúvida religiosa

Por que dizemos nós Cantuária e não Canterbury? Essa não remonta à noite dos tempos. Foi ainda ontem, lá pelo século 19, quando Portugal, e nós atrás, traduzíamos tudo e todos.

Sem exaltações, descuidados de sentimentos anti-estrangeiros, os Henrys para nós eram Henriques e as Elizabeths Isabéis. Depois é que a gente passou a verter nome próprio para nosso idioma, para não ficar parecendo bobo, no parecer das devidas autoridades, e também na louca esperança de que fizessem o mesmo com nossos Ronaldos e Ronaldinhos.

Tudo em vão. Eles continuam a dizer Sal e não São e escrever Paolo e não Paulo. Outro dia mesmo, a BBC TV, numa promovidíssima série de especiais sobre nossa música, legendou direitinho, ou erradinho, quando mostraram um clipe da Carmen Miranda cantando o Tico-Tico no Fubá, “Chico, Chico”, como se ela louvasse ou chamasse o festejado intérprete e compositor de sobrenome Buarque de Holanda.

Uau! Tico-Tico recebeu cerca de 269 versões em inglês ora digitalizadas (conferi) e, entre elas, as das Andrew Sisters, Ray Conniff, Percy Faith, Woody Herman, Charlie Parker e Stan Kenton.

O primeiro programa, exibido na sexta-feira, 23, com reprise no dia seguinte em canal digital, era dedicado às origens do samba. Não foi mencionado, entre outros, o nome de Noel Rosa, o que já bastaria para excomungar todos os envolvidos na preparação dos primeiros 60 minutos de qualquer coisa que trate de nossa música.

Continuando em compasso de digressão: Machadinho, nosso Machado de Assis, não traduziu aquele romance célebre como Oliverio Twist, da autoria de Carlos Dickens? Pois era assim que se fazia. Canterbury alguém tirou do bolso do colete que era para ser Cantuária e estamos conversados, conversados ficamos. Assim era, assim fazíamos.

Volta à Cantuária

Não va mos nos aborrecer mais com minhas voltinhas em torno do quarto bagunçado que é minha mente. O Arcebispo da Cantuária é uma espécie de papa inglês, de pai de santo dos terreiros destas e outras ilhas e pronto.

O arcebispo da Cantuária é o líder da igreja oficial e estabelecida na Inglaterra e comanda uma legião de cerca de 30 milhões de fiéis e admiradores, dos quais apenas 2 milhões são ativos (no melhor sentido da palavra) nas vidas de suas paróquias. Ao arcebispo atual, pois.

O Arcebispo

O arcebispo atual é o Dr. Rowan Williams, galês de nascimento e o título de doutor que precede seu nome (não confundir com comediante americano) não procede de diploma em pediatria ou doenças nervosas. Ele é formado em teologia, o que, convenhamos, faz sentido.

O doutor Williams, ou arcebispo, conforme o gosto do freguês, não tem papas na língua, para empregar uma expressão totalmente inadequada para a pessoa em questão e o assunto abordado.

Tanto não tem papas na língua (repito, por estrangeirismo birrento) que, ainda outro dia mesmo, numa entrevista para uma publicação muçulmana de lifestyle, conforme dizem aqui e aí, a Emel, ele condenou em termos enérgicos os Estados Unidos, enfatizando que aquele país pretende dominar o mundo, tendo tentado a ação violenta contra o Iraque a fim de abrir ou limpar o caminho para exercer sua supremacia global.

Aí então, veio o choque para os anglicanos. O arcebispo da Cantuária acrescentou que os Estados Unidos são ainda pior do que – atenção, que vem lenha aí, anglicanos – o Império Britânico, que eu, como aqui residente, e, por uma vez, convenientemente estrangeiro, coloco em maiúsculas em sinal de respeito e, até onde e possível e do meu conhecimento, afeto.

Não é mau ter um arcebispo. Tivemos D. Hélder Câmara. Depois passou.

Fonte: BBC Brasil