Tudo é Graça na relação entre o Criador e a criatura. Pois, se Deus é amor, como criaria qualquer coisa que não fosse criada como extensão Dele mesmo? E, portanto, como criação de Seu amor?

Criaria Deus o mal? Ou seria o mau apenas uma implicação do exercício da liberdade que o amor dá e é?

Ou ainda: teria a existência do mau o poder de inibir o amor de Deus pelos homens e pela criação?

Seja como for, a questão para mim, hoje, aqui, agora, é apenas uma:

Haveria, porventura, algo que num mundo que se tornou caído pudesse ser uma espécie de subproduto da Graça, ou algo como uma Graça Esforçada? Ou seja: algo que seja a Graça depois do dom, do favor imerecido; e que seria a Graça como recompensa?

Sim! Porque há quem proponha a seguinte conciliação na Graça. Graça como dom, seria o que recebemos pela fé, em Cristo, antes de tudo. Então, vai-se no caminho, no fazer da jornada, na viagem, até o fim. E, no fim, se se perseverar, receber-se-á o que se chamaria de recompensa, ou galardão; o primeiro termo foi usado por Jesus algumas vezes.

Ora, nesse caso, a Graça seria uma espécie de ponta-pé; depois, a força na jornada; e, no fim, uma espécie de bônus do bônus, em razão do servo inútil ter feito apenas tudo o que lhe foi mandado.

Entretanto, “tudo provém de Deus”, em Cristo; em quem temos justificação, santificação, perseverança, força e, por fim, glória.

Então, não sobra nada a ser feito?

Não! Exatamente nada. Tudo está Feito. Só não está concluído em nós. Mas está feito por nós e para nós.

Por isso se manda desenvolver a salvação com temor e tremor, ou ainda que não se permita que a Graça de Deus se torne vã em nossa vida.

Entretanto, o desenvolver a salvação não é algo como desenvolver-se para a salvação.

Não! É deixar-fazer a salvação crescer-ser-crescida em nós.

Nesse caso, a salvação cresce em nós mediante a adesão de nossa consciência em fé à revelação do Evangelho.

Paulo disse que a semente é de Deus, que quem semeia o faz segundo Deus, e o que colhe também; pois, todas essas coisas são ainda muito exteriores em si mesmas, posto que o que de fato é essencial tem a ver com o crescimento que vem de Deus.

Assim, não confundamos o trabalho da salvação na consciência humana com o trabalho humano para se desenvolver para a salvação; pois, o primeiro tem a ver com o Evangelho da Graça; mas o segundo é ainda Religião da Terra, segundo a dissimulação de Caim.

Desse modo, o que Jesus chama de recompensa é o fim do trabalho da Graça no homem, que é levar o homem a ser quem ele já é e foi feito para ser em Cristo; posto que a recompensa do homem é tornar-se enfim um homem, segundo o Filho do Homem.

Portanto, tudo é Graça; o resto é semântica e cebomântica.

Nele,

Caio