Apesar de não ser nem cinema nem musica, o embate entre as duas maiores emissoras de tv aberta no Brasil tem chamado tanta atenção, que resolvi falar também sobre o assunto. E de qualquer forma, ambos os conglomerados tem gravadoras e produtoras de filmes dentro de suas associadas, portanto indiretamente estaremos dentro da temática da coluna.

Essa briga de cachorro grande não é nada recente e já vem rolando desde a compra da rede Record pela Igreja Universal em 1992. Claro que a rede Globo não ficou feliz em ver seu reinado absoluto ameaçado e desde então vem tentando derrubar a audiência crescente da Record de todas as maneiras possíveis.

A Globo, como já disse antes aqui na coluna, é tida como emissora de elite, mas na verdade deve sua posição de liderança à programações dirigidas às classes C e D, vide novelas e programas de auditório. E esse é justamente o público principal da Igreja Universal também. Sem querer ser preconceituoso, mas é visível que a grande maioria dos frequentadores da IURD vem das classes que citamos. Consequentemente, é esse mesmo público que sustenta e apóia a audiência da rede Record, emissora ligada à IURD. Talvez por isso mesmo, a guerra entre Globo e Record tenha esse componente à mais e tenha se transformado na batalha inescrupulosa em que se tornou.

O vídeo divulgado em 1995 que mostrava o bispo Edir Macedo ensinando outros pastores da Universal a pedir dinheiro é um exemplo do nível que essa disputa chegou. Falando nisso, o bispo Macedo nunca explicou direito esse vídeo; nunca vi nenhuma justificativa que o inocentasse ou mesmo um pedido de desculpas. Alem do mais, é no mínimo questionável do ponto de vista ético, uma igreja se envolver na compra e administração de uma emissora de tv aberta. E só não vê a ligação entre as duas coisas, quem não quiser.

O mais novo episódio dessa guerra sem fim se deu essa semana com indiciação da IURD pelo ministério publico por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Claro que a Globo não iria deixar passar essa oportunidade de ouro e dedicou generosos minutos de sua programação jornalistica à cobertura do caso. O jornal nacional chegou ao exagero de dedicar 16 minutos ao episódio. Realmente não me lembro de outra situação em que o Jornal Nacional passasse tempo semelhante falando de um assunto só. Geralmente aquele telejornal tem uma linha editorial simplista e reducionista e meramente menciona os assuntos principais sem entrar em detalhes ou levar o espectador a alguma reflexão. Aliás, quem depende do Jornal Nacional para ficar informado está em maus lençóis. Por isso foi, na melhor das hipóteses, estranho ver tantos minutos dedicados a um mesmo assunto.

A resposta da Record não foi muito diferente. Ao invés de se defender das acusações, limitou-se à atacar a Globo e fazer denúncias de ligações com a ditadura e coisas do gênero. A única resposta foi dizer que as acusações são as mesmas que a Universal recebeu no final da década de 90 e foi absolvida, na verdade teve o caso arquivado. Mas a Record esquivou-se de comentar sobre se há novos elementos e sobre a razão porque o ministério publico resolveu aceitar as denuncias dessa vez. Da Globo espera-se de tudo, golpes baixos e etc.. mas a Record sendo veinculada a uma Igreja evangélica não precisava ter descido ao mesmo nível. Por mais interessante que seja expor o lado negro da rede Globo, a Record precisa urgentemente dar respostas objetivas e esclarecedoras às acusações. Esse negócio de ficar batendo na tecla da “perseguição religiosa” não engana mais a ninguém; a Universal tem a obrigação de prestar contas aos seus congregados e não ficar só na falácia contra a rede Globo.

E sinceramente espero que respostas às acusações possam ser feitas e de forma satisfatória. Nunca é bom ver uma instituição evangélica ser apedrejada em praça pública. Nenhum evangélico deveria ficar feliz com isso. Mas é bom lembrar o que disse Jesus: “à César o que é de César, à Deus o que é de Deus”; certamente há os que afirmam que existem implicações espirituais na guerra entre Globo e Record, mas cada coisa tem seu lugar. As denúncias são graves e tem que ser devidamente defendidas na esfera legal .

Nessa guerra quem sai perdendo, como sempre, é o telespectador, que se vê cada vez mais bombardeado por todos os lados com programações caça-niqueis, jornalismo tendencioso e outras baixarias. Bom seria se a tv à cabo, ou satélite, fosse mais acessível no Brasil e a tv aberta tivesse menos poder sobre a população. Sem a mesma pressão pela audiência a qualquer custo, a tv à cabo consegue produzir programas de melhor nível, mais informativos e que levam à reflexão. Basta comparar os programas da própria rede Globo, com os do GNT, seu braço de tv por assinatura, para ver a diferença de nível. Todos sairíamos ganhando com isso. Pois, sempre é bom lembrar que, no final das contas, quem fornece munição para que essa guerra toda continue, são vocês que dão audiência para os programas medíocres que tanto a Globo quanto a Record produzem.

Um abraço,

Leon Neto