Luciano, motorista de táxi, tinha especial carinho pelo seu instrumento de trabalho, um Del Rey modelo 96. Como seus colegas de profissão, dava um duro danado e corria diversos riscos trafegando pelas ruas de sua cidade, no interior de São Paulo, até tarde da noite, tentando juntar um dinheirinho a mais para pagar as dívidas e dar uma vida digna para seu filho pequeno.

Mesmo sem muito tempo livre, Luciano arrumava sempre um jeito de dar uma passadinha na Igreja Universal do Reino de Deus, que ele freqüentava assiduamente, mais de uma vez por semana. As pregações inflamadas dos bispos, a musica contagiante e as sessões de “descarrego”, causavam um impacto muito grande nele, que nunca deixava de participar dos ofertórios, com muita fé e devoção.

Em determinada noite, após uma campanha especial da Igreja, Luciano tomou uma decisão bastante difícil: vender seu “companheiro de trabalho” , o amado Del Rey e doar o apurado em sua inteireza para a Igreja, como sinal de fé incondicional. Motivado em parte por promessas bíblicas e em parte por esperanças materiais, Luciano efetuou a venda do carro e não tardou a passar dois cheques, com o total da venda , para a sua amada Igreja. E lá se foi Luciano, a pé, a esperar a “virada da maré”, e a prosperidade prometida nas mensagens dos pastores.

Depois de alguns meses sem ver sinal de melhoria em sua, ainda mais difícil vida, Luciano começou aos poucos a endurecer seu coração e mesmo a questionar sua fé. Afinal, ele fez tudo o que se poderia esperar de um servo dedicado, deu tudo o que tinha como oferta, e onde estava então sua recompensa?

Não demorou muito para que o pobre Luciano apostatasse da fé e se virasse contra a IURD de sua cidade. Foi falar com o pastor, dizendo que estava arrependido e que queria sua oferta de volta. Como era de se esperar, o pastor ficou chocado com a atitude de Luciano e precisou levar o caso para esferas mais altas da igreja, que determinaram que o dinheiro não seria devolvido.

Foi então que nosso amigo tomou a atitude extrema de entrar na justiça contra a Igreja Universal, requerendo a devolução de sua oferta. Depois de meses de batalha e para a surpresa de todos, a justiça deu ganho de causa a Luciano, que aguarda o recebimento do fruto da venda de seu amigo, o Del Rey 96.

Apesar de parecer, o texto acima não é um roteiro de filme. Mas bem que poderia ser. Baseado em fato noticiado aqui no Folha Gospel, a incrível estória de Luciano está deixando muito pastor de “cabelo em pé”. Já imaginou se a moda pega? Como é que vamos lidar com o afluxo de devoluções de dízimos e ofertas? O caso certamente abre um precedente bastante perigoso na justiça brasileira. Talvez fosse até um assunto para nosso querido colunista Gilberto Garcia comentar no futuro.

Como não sou jurista, não vou entrar no mérito da questão. Mas, gostaria de deixar alguns pontos para reflexão. Em primeiro lugar, lamento que o caso tenha chegado aos tribunais, o que mais uma vez, envergonha o evangelho no Brasil. Se eu fosse o pastor em questão, tentaria aconselhar Luciano a refletir mais sobre a questão, à luz da Bíblia, e se não tivesse jeito, devolveria a oferta dele antes que a queixa virasse processo. Dízimos e ofertas são voluntários. Não se trata de pagamento ou investimento financeiro. Se o doador quer de volta…

Eu que nasci e me criei dentro do meio evangélico, não achei que fosse viver para testemunhar algo assim. Como dizia minha mãe, “seria cômico se, não fosse trágico”. Alguém pedir o dízimo de volta, parece mais piada que realidade. Mas se fosse esse o caso, eu não só devolveria o dinheiro, como tentaria ajudar Luciano a gerenciar melhor suas finanças e a buscar uma capacitação profissional que lhe possibilitasse conseguir melhores empregos, melhorar de vida, sem ficar esperando por milagres. Se eu fosse o pastor de Luciano, tentaria usar parte da verba da igreja para criar programas educativos e de treinamento profissional gratuitos para a comunidade. Na minha opinião, um uso bem mais nobre do dinheiro da Igreja, do que construir mega catedrais, ou mansões em Campos de Jordão.

Em segundo lugar, gostaria de dizer ao Luciano que seu conceito sobre mordomia está bastante equivocado. Dar, na intenção de receber em dobro é uma distorção e contradiz os princípios cristãos. Jesus nunca prometeu moleza nessa vida e a prosperidade no contexto bíblico não é necessariamente material, mas primordialmente na dimensão espiritual. Talvez Luciano tenha se deixado seduzir pelas promessas que tanto ouviu na Igreja, mas nunca tenha se convertido de fato. Dízimos e ofertas são para o sustento da obra de Deus e não para serem usados como barganha espiritual. O cristão autêntico oferta com amor sem esperar nada em troca.

Gostaria muito que Luciano pudesse ter ouvido uma mensagem do Pr. Jonathan Falwell, da Igreja Thomas Road, que presenciei recentemente. Na ocasião ele perguntou à Igreja, “quem de vocês gostaria de ser próspero e de que os seus empreendimentos fossem abençoados?” Todos na Igreja levantaram a mão, com gritos de “amém”, “aleluia”, à espera de alguma palavra mágica, oração poderosa, ou dica milagrosa. Ele então completou; “pois façam como o salmista diz no salmo 1: estudem e meditem na palavra de Deus dia e noite”.

E da palavra, Luciano, vem a sabedoria.

Um abraço,

Leon Neto