O dito “quanto mais se sabe, mais se sabe que nada se sabe” parece até um clichê, porém, nem por isso deixa de ser verdadeiro.

Sim, porque a ignorância batizada de saber incha e torna arrogante o ser. Porém, o saber-que-sabe-que-nada-sabe recebe sabedoria para sempre.

Isso porque aquele que pensa que sabe já está sepultado no seu próprio saber, visto que é apenas “um-saber-próprio”, portanto, sistêmico e fechado em si mesmo. Foi em contraposição a esse tipo exclusivista de saber que Jesus disse: “O meu saber não é meu próprio, mas sim daquele que me enviou”.

Acerca de alguém possuído de tal saber que se jacta de saber, se diz: “Ele é um poço de saber”. E se diz certo, pois tal pessoa é isso mesmo: um buraco cheio de alguns ou até mesmo de muitos saberes. E é só isso.

Mas o saber-que-sabe-que-nada-sabe é como um oceano, que se alimenta de águas que vêm do céu, e, por isso, continuam sempre…

Esse tal, apenas recebe o que vem dos céus como se ele mesmo fora apenas e tão somente uma bacia-existencial-ocêanica, e deixa vazar pelos drenos de areia e terra de seu leito profundo, tudo aquilo que de cima lhe vem. E por esses drenos irriga a terra por baixo; e alimenta fontes, ribeiros, rios, grandes rios, que voltam para os mares, e estes, para os oceanos. Isso sem falar que cada pedaço de oceano transformado em pequenas unidades de si mesmo, em cada lugar que passa enquanto a viagem acontece, e em cada estado no qual se manifesta, é agente de transformação, virando chuva, chuvarada, tempestade, neve, furacão, tufão, ou apenas orvalho.

E no fim, tudo volta reciclado, e o oceano continua… Cumprindo ciclos, porém aberto e disposto a tudo e todos, fazendo sínteses de propriedade, adaptabilidade e pertinência em cada situação.

Mas aquele que apenas é “um poço de sabedoria” será apenas isto: um buraco cheio de sabedorias; ou melhor: de saberias…

Estou escrevendo isto porque estava vendo um documentário “culto” na televisão e, de repente, me deu vontade de checar os e-mails. Então, fui e abri a porta do quarto. De trás da porta, caiu uma das bermudas do Lukas, uma das que eu uso. Um mundo de recordações me visitou. Eu o vi pondo a bermuda, muitas vezes, enquanto conversava comigo… Quantas lembranças, saudades… Saudades de seus carinhos, de seu preguiçoso “Alô, paiiiiii” ao telefone. Um universo inteiro de dores, de verdades, de alegrias, de esperanças e de muito, muito amor.

Então, enquanto abaixava e juntava a bermuda dele, fui como que sugado para dentro de algo indescritível, do meio do qual me veio um abraço eterno, e uma voz, que dizia: “Eu Sou Mistério. Agrada-te de Mim”. Saltei assustado!

Fiquei quieto, em silêncio. Fiquei pensando na arrogância de qualquer saber. Curvei-me e O adorei. Saí do quarto, sentei-me aqui e escrevi.

Ora, este foi o meu processo. No entanto, sobre isto Paulo diz que todo saber que é sem amor apenas incha, inflaciona, mas nada acrescenta ao ser.

O saber que é apenas é, e nada pensa de si. Não se compara; não busca nada; porém, não desperdiça coisa alguma e não duvida do amor, jamais. Esta é grande marca do saber que é: ele nunca duvida do amor, jamais.

O saber que é pensa, e muito; mas pensa a partir do amor. Sim, porque como não carrega ódio e nem o mantém em qualquer relação que tenha com qualquer coisa, ser, ou objeto do mundo ou de qualquer dimensão, mas apenas tudo vê com o olhar do amor de Deus. Então, para onde quer que se vire, verá, e sempre será ensinado pelo que vê, mesmo que sejam trevas, pois as trevas e a luz são para Deus a mesma coisa.

Por isso ele diz: “Até durante a noite tu me ensinas”.

Outro dia ouvi o pedagogo Rubem Alves dizer que Deus é “O Grande Mistério”. Me doeu. Ele estava quase lá. Mas ainda muito aquém. Deus não é “O Grande Mistério”, algo como o hino que diz “Não há Deus maior que Tu”. Não! Não há Deus ou Deuses nem maiores e nem menores. Não é porque há o Todo-Poderoso que passa a haver os Quase-Todo-Poderosos.

Pois assim como não há deuses, não há também mistérios. Portanto, Deus não é “O Grande Mistério”. Ele é Mistério. E todas as demais coisas decorrem Dele. E o que quer que por nós seja visto como mistério, só é mistério para nós; porém, é mistério Nele, que é Mistério em Si mesmo.

É assim que alguém se torna um poço de cultura, mas perde a amplidão do oceano. Sente cheiro de chuva, mas não se molha. Percebe os aromas da mata, mas não entra na floresta. Encanta-se com as ondas do mar, mas nunca as surfa. Bebe água gelada, mas detesta ser exposto às alegrias do frio.

Ora, quem quiser saber como é o ser-que-sabe-que-nada-sabe, olhe para Jesus. Ele tudo sabia, mas soube como saber e não saber. E marcou isso com a fala do Mistério de Deus, quando disse que quanto “àquele dia e hora, ninguém sabe; nem os anjos, nem o Filho; porém tão-somente o Pai”. Assim, o Filho adora o Pai. Para que Nele e para Ele sejam todas as coisas.

Por isso, também, Jesus nunca deu grandes explicações acerca de nada. E sempre que explicou, apenas abriu mais portas de perplexidade nos ouvintes.

Não disse por que se sofre, apenas curou os que sofriam. Não disse por que se explora, mas acolheu os explorados. Não falou da Queda de Satanás, mas o fez cair e expulsou demônios. Nunca se relacionou com entidades, mas as viu como potestades. Passou à margem de tudo e ficou no centro.

Não escreveu nada, pois confiava absolutamente no amor do Pai. Assim, entregou-se à memória do amor, fazendo-se pão e vinho, ao invés de escrever tratados sobre Seus entendimentos.

Disse “Eu Sou o Caminho”, mas deixou claro que para alguém saber como é, terá de Segui-Lo pelas estradas da existência, pela fé.

Assim, Jesus é Aquele que, sabendo tudo, leva surpresas, muda a agenda, se deixa constranger e abre portas para todos, exceto para os que se consideram Porteiros do Saber de Deus para os homens. A esses tais, fossem fanáticos fariseus ou sofisticados escribas e sacerdotes, fossem saduceus liberais ou fossem zelotes engajados na libertação política do povo, Jesus sempre provocou.

Foi a esses que eram “buracos de saber” que Jesus disse “pouco te falta”; ou, ainda, “Vai, vende tudo o que tens, dá aos pobres, e segue-me”; ou, ainda, “Fariseu hipócrita!”

O saber que se confessa saber cria de imediato um fariseu intelectual. E assim, mata a alma para a possibilidade de ir crescendo no saber-que-sabe-que-nada-sabe, pois sabe que apenas sabe porque ama e é amado pelo Pai; e sabe que é infiltrado pelo Saber do Mistério, embora ele mesmo não saiba como e nem quando. E é justamente por isso que vai sabendo. Sim, apenas porque segue crendo.

O justo viverá pela fé em tudo. Até — e sobretudo — no saber.

Nele,

Caio