James Cameron tem cacife como poucos em Hollywood. Depois do mega-sucesso “Titanic” foi alçado à categoria de ícone, e consegue captar recursos humanos e materiais para seus filmes como pouquíssimos diretores e produtores conseguem, nesses dias de crise mundial.

Tanto, que sua nova produção, o filme “Avatar” está sendo considerado, extra-oficialmente, como o mais caro da história do cinema. A 20th-Century Fox, estúdio responsável pelo financiamento do filme não divulgou números oficiais, mas há quem cogite a cifra de 400 milhões de dólares.

Quando todos pensavam que ele já tinha chegado a seu ponto máximo, James Cameron aparece com um filme de ficção científica que promete inovar mais uma vez e mesmo mudar a maneira de se produzir filmes em Hollywood. O diretor entre as muitas inovações, criou uma câmera que simula o cenário virtual em CGI e dá aos atores e ao diretor uma visão mais precisa do resultado final, sem ter que lidar o tempo todo com aquela enorme e inexpressiva tela verde. Além disso, o filme utilizou a não tão nova tecnologia de filmar em 3D (terceira dimensão), mas dessa vez de uma maneira diferente, evitando aquelas tomadas manjadas e usando a terceira dimensão para inserir o expectador literalmente dentro da trama. E como se já não fosse suficiente, “Avatar” também fêz uso do formato IMAX, que reproduz as imagens em uma super-tela de 29m x 16m, com mais de 1.000 m2 de área.

A produção de filmes em IMAX 3D é caríssima por que precisa de duas câmeras para filmar as cenas simultaneamente, e assim criar a sensação tridimensional. As câmeras são extremamente caras, pesadas e difíceis de se manipular. Normalmente essa tecnologia é utilizada para a produção e filmagem de documentários e filmes científicos, geralmente com pouco mais de 40 minutos de duração. Para rodar as mais de duas horas e meia de “Avatar”, boa parte do seu vultuoso orçamento teve que ser utilizada para desenvolver novas e mais modernas câmeras.

Só para se ter uma idéia da sofisticação desse formato, basta saber que atualmente no Brasil existem apenas duas salas equipadas para projetar filmes em IMAX 3D, uma em São Paulo e outra em Curitiba. Mesmo aqui nos Estados Unidos não é em todo lugar que se encontra um cinema IMAX 3-D; eu tive que rodar mais de três horas de carro para ir ao IMAX mais próximo da minha cidade.

Bem, mas vamos ao filme. Em termos de roteiro, não esperem grande coisa, porque alias, esse nunca foi o forte de Cameron. “Avatar” é quase que de uma colagem de idéias de outros filmes. O conceito do “Avatar” vem claramente de “Matrix”, a gradual conversão do personagem principal aos costumes nativos vem de “Dança com Lobos”, as cenas dos rituais lembram um pouco “O Rei Leão”, o personagem geneticamente perfeito mas paraplégico lembra “Gattaca”, os dinossauros alados parecem muito com a minissérie “Dinotopia” e o conceito do planeta integrado, como um ser vivo, vem do filme russo “Solaris”. Além disso, o filme é tão panfletário e ecologicamente correto, que têm-se a impressão de que a qualquer momento Al Gore vai aparecer de mãos dadas com Leonardo di Caprio e fazer um pronunciamento em defesa do meio ambiente. Os personagens são bem estereotipados e rasos; os mocinhos são poços de virtude e os bandidos a encarnação da maldade, e a narrativa é pra lá de maniqueísta. De forma geral, achei “Avatar” pouco mais do que uma estorinha infanto-juvenil sem maiores profundidades.

Mas, se não é nenhuma obra-prima literária, a estória de “Avatar” também não é assim tão ruim; fica na media dos filmes do gênero e traz algumas coisas bem interessantes. O universo do planeta Pandora criado por Cameron é riquíssimo e cheio de detalhes. Os animais, as arvores gigantescas e as montanhas flutuantes (é isso mesmo!) são de cair o queixo. A sacada de criar um elo físico, uma conexão fisiológica entre os habitantes do planeta é muito interessante também: os nativos e os animais tem como que um apêndice que os conecta, quando interagem entre sí. E se pensarmos bem, o conceito nem é tão absurdo assim, basta pensar nos domadores de cavalos e adestradores de cães que de fato tem uma ligação instintiva com seus animais e estabelecem um elo forte e indissolúvel. Em Pandora esse aspecto é levado a uma outra e mais profunda dimensão.

Mas de fato, o que faz toda a diferença em “Avatar” é o espetáculo visual com o qual o expectador é brindado. Eu já tinha assistido a outros filmes em IMAX 3-D, mas “Avatar” certamente faz uso como nenhum outro filme dessa tecnologia. Logo na primeira cena, Cameron brinca com a audiência ao colocar uma gota d’água em gravidade zero fora de foco e só depois é que percebemos que não tem nada de errado com os nossos óculos 3D , que foi só um preâmbulo do show de imagens que está para começar. Em alguns momentos, eu nem sabia direito para onde olhar, dada a multidão de detalhes e sutilezas. Depois de “Avatar” nunca mais o recurso de filmagem em 3D vai ser o mesmo. A interação entre CGI e atores reais também é inovadora e extremamente bem feita. Os “avatares”, que na trama são construídos a partir do DNA de humanos e nativos geneticamente modificados, na filmagem também são seres híbridos, criados em parte pelo trabalho dos atores, e em parte pela computação gráfica. O grau de perfeição é incrível e as imagens digitais nunca foram tão expressivas. Diante de tanta exuberância, termina-se até por esquecer as limitações do roteiro, que afinal de contas nem tem tanta importância assim nesse gênero de filme; o que importa mesmo é a diversão pura e simples, e nesse quesito “Avatar” é insuperável.

Se você mora em São Paulo ou Curitiba, não deixe de ver esse filme em um cinema IMAX, porquê só mesmo em IMAX 3D é que se pode experimentar em sua plenitude a sinfonia visual de “Avatar”.

“Avatar” provavelmente está destinado a criar uma geração de fãs da mesma forma que filmes como “Guerra nas Estrelas” e “Senhor dos Anéis” criaram, e vai alçar James Cameron a uma posição ainda mais alta no panteão de Hollywood.

Agora, o grande burburinho em Hollywood é saber qual será a próxima loucura de James Cameron. Filmar no espaço com gravidade zero? Um filme que ultrapassará a barreira de 1 bilhão de dólares? Um filme em 3D sem a necessidade de óculos? Só nos resta esperar. Quem viver, verá. E certamente verá em IMAX 3-D ou algo ainda mais sofisticado.

Um abraço,

Leon Neto