Recentemente teve sua estréia em cinemas brasileiros o filme “Bobby”, do diretor de “primeira viagem” Emilio Estevez. Emilio é o membro menos famoso do clã composto por Martin Sheen (“Apocalypse Now”), seu pai, e Charlie Sheen (“Platoon”), seu irmão mais novo.

O novel diretor, de 44 anos, nunca foi levado à sério por seu trabalho como ator e ao longo de sua carreira jamais recebeu grandes condecorações da crítica especializada. Se você tiver mais de trinta anos, vai reconhecer Emilio Estevez por suas participações em filmes adolescentes do início dos anos 80, tipo “O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas” e “Repo Man, a Onda Punk”, ou o mesmo o divertido “Tocaia”, com Richard Dreyfus, talvez seu melhor trabalho como ator.

Ninguém imaginava que depois dos 40 Emilio fosse enveredar pelo árduo caminho da direção de filmes. E o fez com surpreendente sucesso. Logo no seu primeiro filme, conseguiu mostrar qualidades que jamais demonstrou ter como ator: criatividade, ousadia e sensibilidade. “Bobby”, trata sobre os últimos momentos do candidato a presidência dos Estados Unidos, Robert F. Kennedy assassinado momentos antes do resultado das eleições primarias em 1968. a morte de “Bobby”, como era carinhosamente chamado por seus correligionários, foi um fato histórico de grande relevância na historia política norte-americana, que na época ainda não estava completamente recuperada do assassinato de John F. Kennedy, irmão de Bobby.

O assassinato desencadeou diversas manifestações populares, principalmente junto às minorias do país, que Bobby tanto defendeu em sua campanha, e ajudou os EUA a revaliar posições de extrema direita que ainda emperravam a plena aplicação em sua intregidade, dos direitos civis.

Emilio Estevez, optou por retratar o evento a partir da ótica de diversos personagens, representantes das várias camadas sociais da comunidade norte-americana do final dos anos 60, que de uma forma ou de outra se viram envolvidos ou afetados pela tragédia. Contando com um elenco super estelar com atores do calibre de William H. Macy, Sharon Stone, Anthony Hopkins, Helen Hunt, Demi Moore, Martin Sheen e o sempre ótimo Laurence Fishburn, o diretor vai tecendo uma teia de dramas particulares que se entrelaçam no decorrer dos minutos finais que antecederam o assassinato. Até mesmo a doidinha Lindsay Lohan, recentemente presa por dirigir embriagada, está muito bem e mostra que quando sóbria tem talento e muito a oferecer como atriz.

Mais do que um filme com ares de documentário, “Bobby”, na verdade se centra nas relações interpessoais de gente comum e mostra o impacto de um fato histórico importante na vida de pessoas de carne e osso, como eu e você. O filme representa mais do que a redenção de um ator medíocre que transpôs a ponte que separa o joio do trigo; representa também a importância de uma nação estar sempre preocupada em analisar sua historia e rever seus valores, de fazer a dura tarefa de enxergar além do preconceito e iniciar processos de mudança, muitas vezes dolorosos.

Gostaria muito de ver no Brasil, filmes como “Bobby” sendo produzidos. Gostaria de ver diretores “colocando o dedo na ferida” de situações ainda penosas para o nosso povo, como por exemplo a ditadura militar, o governo Collor, os massacres comandados por latifundiários, o tráfico de drogas nas favelas do Rio e São Paulo, o escândalo dos anões da união e até mesmo as recentes denúncias de corrupção do governo Lula. O cinema, mais do que simples entretenimento, precisa cumprir, por vezes o papel de catalisador de mudanças e condutor de discussões de fatos que de outra forma ficariam perdidos no tempo. Especialmente em um país sem memória com é o nosso Brasil.

Um abraço,

Leon Neto