Hoje peço licença para ser ainda mais pessoal do que o de costume; também peço licença para não falar sobre cinema ou sobre musica; peço licença ainda para na verdade nem mesmo escrever uma coluna, mas apenas uma carta aberta para todos os que tem nos acompanhado nos últimos anos.

Como quase todo mundo, algumas coisas aconteceram cedo em minha vida e outras acabaram só acontecendo bem tarde. Minha mãe dizia, por exemplo, que eu andei com seis meses, falei com nove e que uma das primeiras palavras foi “aliás…”(que criança esquisita, hein?), entrei na faculdade com menos de 17 anos, e comecei a ensinar no já ano seguinte. Em compensação, só comecei a dirigir com 21, casei com 36 e só fui fazer mestrado com quase 38.

Hoje vejo que as coisas que aconteceram cedo foram menos saboreadas do que as que aconteceram tardiamente; talvez pelo de fato de que na juventude todos nós queremos conquistar o mundo em trinta segundos e mal temos tempo para usufruir das conquistas. A idade traz suas mazelas, mas traz também experiência que nos ensina a não fazer as mesmas burradas e a ter uma relação mais amigável com o tempo.

Há quase dez anos atrás, quando ainda no início do namoro que viria a se transformar em casamento, escrevi uma poesia sobre um personagem hipotético, um sonho que, quem sabe viria a se materializar um dia, em talvez em mais um desses eventos tardios de minha vida:

“Clara,
Como as cristalinas aguas da fonte, que jorram alegres, vibrantes de vida
Clara,
Como a brilhante luz do sol, que aquece as lembranças e renova esperanças
Clara,
Como as nossas intenções, de vida comum, de amor verdadeiro
Clara,
Como a pele da mãe que linda, serena, me faz suspirar…
Clara,
Como a fina mistura de dois que se amam, tornando-se um
Clara,
Como e a certeza de um dia sorrindo, ouvi-la chegar
Clara,
Como todas as cores, como todas as bênçãos, como só ela mesma poderia ser
Clara,
Anna Clara.”

Mas, por força das circunstâncias esse sonho foi sendo adiado e ficando cada vêz mais distante. Cheguei mesmo a pensar que jamais se realizaria.

Mas, quinta-feira passada, 12 de Novembro de 2009, Anna Clara se materializou com 3 quilos e meio e 51 centímetros, trazendo consigo um turbilhão de emoções, de cores, de lagrimas que este colunista não conseguiu antecipar, mesmo com quase dez anos de atraso.

Por isso, hoje não tem coluna, não tem comentários, criticas ou resenhas. Entre mamadeiras, fraldas, choros e muitas olheiras, apenas quero partilhar com o mundo mais um evento tardio em minha vida, a alegria sublime de ser pai pela primeira vez depois dos quarenta.

Um abraço,

Leon Neto