Semana passada assisti a um programa muito interessante no “The History Channel” sobre o envolvimento da indústria cinematográfica com temas religosos. O documentário fez um apanhado histórico desde os filmes mudos de Cecil B. De Mille até o recente “A Paixão de Cristo” de Mel Gibson, passando por filmes polêmicos como “ A Última Tentação de Cristo” e “A Vida de Brian”.

Alguns tópicos me chamaram bastante a atenção, especialmente curiosidades como o chamado “Hayes code”, um movimento surgido nos anos 30 nos Estados Unidos, que visava estabelecer um codigo de ética a ser adotado por todas as produções dos grandes estúdios. O tal código foi elaborado por lideranças evangélicas e tinha como base, princípios morais Cristãos.

Bem, parece que a iniciativa não deu muito certo, não é? Outra curiosidade foi saber da existência de uma produção do cinema Indiano sobre a vida de Cristo (“ Yadabasar”), responsável por milhões de conversões naquele país. O último tópico abordado foi sobre o surgimento de um mercado paralelo ligado a produção de filmes evangélicos. Um bom exemplo é a série “Deixados para Trás”, baseado nos livros de Tim Lahaey, cujo terceiro episódio nem vai mais ser lançado em salas de cinema, mas diretamente em DVD. Assim como a série que acabamos de citar, muitas outras produções Cristãs tem direcionado seus esforços diretamente para as Igrejas e suas congregações. Isso tem se tornado um verdadeiro fenômeno aqui nos EUA.

Sem querer pegar carona no tema do tal documentario e, já pegando, resolvi fazer aqui a minha lista de sugestões de filmes com temática ligada a religião e mais especificamente, ao Cristianismo. Tentei sair um pouco do óbvio e evitei aqueles filmes que estariam presentes em qualquer lista desse tipo, como “A Paixão de Cristo”, “Os Dez Mandamentos” e “Quo Vadis”; resolvi incluir algumas producões de menor escala mas que, acho que vão proporcionar um bom entretenimento e mais que isso, um pontapé incial para discussões importantes. Aqui vai minha lista:

1- “O Evangelho Segundo São Mateus” (1964)

Começo a minha lista com um filme quase desconhecido e dirigido por um diretor absolutamente inesperado para uma produção sobre a vida de Cristo. Pier Paulo Pasolini que hoje e sinônimo de rebeldia, deboche e anarquia, no início de sua carreira dirigiu este, que para muitos críticos é considerado a mais fiel adaptação do Evangelho. Pasolini usou atores sem nenhuma experiência e figurantes da propria comunidade local e conseguiu retratar com fidelidade a rusticidade e simplicidade do povo judeu do primeiro século. A ausência de glamour é tambem reforçada na fotografia em branco-e-preto, no figurino e mesmo nas atuações instintivas e apaixonadas dos atores italianos.

2- “Godspell” (1973)

Mesmo não sendo muito fã de musicais, essa adaptação para o cinema da peça da Broadway de mesmo nome, me cativou bastante. Legítimo representante da estética hippie dos anos 60, “Godspell” certamente é bem mais palatável do que seu co-irmão “Jesus Cristo Superstar”, por ser menos questionador, ser mais leve e com canções bonitas e singelas. O diretor inglês David Greene (“Raízes”), que também escreveu o roteiro, fez um ótimo trabalho ao levar para a telona a mesma atmosfera e linguagem do teatro. Praticamente não há figurantes e as locações foram feitas em uma Nova Yorque completamente vazia. Imagino o quanto deve ter sido difícil conseguir os takes sem transeuntes por perto. Algumas canções como “Day by Day” se tornaram clássicos instantâneos e ainda hoje são gravadas e regravadas. Esse é o tipo de filme que daria pra passar em uma reunião do grupo jovem de sua Igreja sem problema algum.

3- “A Festa de Babbete” (1988)

Este adorável filme dinamarquês, que conquistou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1988, traz em sua sutileza de detalhes, diversas lições de vida. A estória se passa no final do século 19 em uma vila de pescadores, que tem como maior referência moral, um pastor protestante e suas duas filhas. Após a morte do pai, as filhas tentam manter vivos os ensinamentos do pai e seguir vivendo com a simplicidade costumeira, até que chega ao vilarejo uma misteriosa mulher em busca de abrigo. Aos poucos a comunidade adota a tal mulher, que passa a trabalhar como cozinheira das duas filhas do pastor. Tudo vai caminhado bem até que um dia a mulher, que tem seu passado ainda como um misterio para todos, recebe a noticia de que ganhou um prêmio na loteria. Contar mais do que isso seria estragar a a surpresa, se você ainda não viu o filme. Contudo, mais do que a trama em sí, o que é mais interessante no filme é o estudo das relações humanas e o questionamento dos valores da nossa sociedade materialista. Os atores são brilhantemente dirigidos e passam uma veracidade enorme a cada diálogo. Inúmeros aspectos da vida Cristã podem ser detectados no filme e usados para ilustrar ou iniciar debates. Só um aviso; se você assitir ao filme com estômago vazio, vai ter vontade de ir ao restaurante mais proximo assim que o filme acabar!

4- “A Promessa de Um Milagre” (1988)

Taí um filme que aborda uma questão que merece muita discussão. A estória, baseada em fatos reais, traz uma familia pentecostal americana que tem um filho diabético, que um belo dia , após um culto, se diz curado. Os país então, por orientação do pastor, deixam de dar insulina, medicamento vital para a criança, para não demonstrar “falta de fé”. Claro que o pobre menino morre e os pais são presos por negligência. O filme então, apartir da ótica dos pais, tenta estabelecer até onde vai o limite entre a fé e a razão e até que ponto os pais foram responsáveis pela morte da criança. Não se trata de nenhuma obra prima, mas, mesmo tendo sido filmado em 1988, o filme continua bastante atual e merece ser visto e debatido.

5- “A Mão do Diabo” (2001)

Dirigido e estrelado por Bill Paxton (“Twister”, “Titanic”), esse surpreendente filme de suspense também traz questões muito interessantes. Conta a estória de um pacato mecânico de uma cidadezinha do interior do Texas que jura ter recebido a visita de um anjo. No tal encontro o “anjo” o comissiona para sair matando pessoas incautas por aí, com a justificativa que são na verdade “demônios” travestidos de gente. Detalhe: o mecânico que se auto denomina “a Mão de Deus”, leva consigo seus dois filhos pre-adolescentes e os envolve na matança. Vários anos depois da morte do pai, crimes similares voltam a acontecer na mesma região e um dos irmãos procura um agente do F.B.I. para dizer que acha que o outro irmão é o assasino. Até que Bill Paxton se saiu muito bem em seu primeiro flme como diretor. A trama é conduzida de forma segura e os atores estão muito bem dirigidos, inclusive os dois adolecentes que estão pra lá de convincentes, em seus conflitos interiores: não sabem se o pai é um louco ou um profeta. Mais uma vez podemos discutir, a partir desse filme a questão do extremismo religioso .

6- “Waco: The Rules of Engagement” (1997)

Se você se lembra do chamado “massacre de Waco”, onde em abril de 1993, após um cerco de mais de 50 dias, cerca de 76 seguidores de David Koresh morreram em consequencia da ação do F.B.I ., vai se interessar muito por esse documentário. Não sei se você vai encontrá-lo nas locadoras com facilidade, mas se conseguir, certamente vai valer a pena. O filme traz imagens reais dos fanáticos e de seu líder, que se auto-proclamava a “segunda vinda de Cristo” e também depoimentos de policiais envolvidos na ação, e mesmo cenas do processo que se desencadeou após o fatídico dia. É impressionante como David koresh conseguia manipular uma comunidade inteira sem ser questionado em momento algum e como usava a propria Biblia para justificar suas prerrogativas. Imperdível!

7- “Em Nome de Deus” (2002)

Encerro minha lista com essa pequena pérola, que passou despercebida pela maioria dos cinemas Brasileiros. Baseado em fatos reais, esse filme irlandês do excelente diretor Peter Mullan (“Filhos da Esperança”) , descortina um fato vergonhoso para a Igreja católica daquele pais e que ficou enconberto até recentemente. Durante muito tempo jovens garotas consideradas “perdidas”, eram enviadas para orfanatos com o intuito de serem “reformadas”. Mas, o que acontecia de fato, é que passavam a fazer trabalho escravo para as freiras que se beneficiavam da mão de obra gratuita e faziam de tudo para manter as garotas em sua custodia indefinidamente. O filme se passa no início dos anos 60, quando quatro jovens são enviadas para um desses orfanatos. O que fica claro em cada caso, é que mais do que a recuperacao das jovens, as famílias queriam mesmo era se livrar da vergonha de ostentatem uma filha mãe solteira ou de moral duvidosa. O filme é muito bem feito e em momento algum cai no lugar-comum de expôr os personagens de forma estereotipada e sem profundidade; todos freiras e internas, são retratados com verosimilhança e com todos as contratições e complexidades do ser humano.

Agora é só preparar a pipoca, reunir os amigos e curtir uma boa e edificante sessão de cinema.

Um abraço,

Leon Neto