Ao contrario da maioria de seus colegas de profissão, em especial atrizes, que não conseguem envelhecer com dignidade e seguem tentando brecar os inexoráveis avanços do tempo com cirurgias plásticas deformadoras e infindáveis injeções de Botox, o ator/diretor Clint Eastwood há muito assumiu sua terceira idade e continua evoluindo em sua já consagrada carreira.

E olha que ele antes não passava de mais um galã com fama de durão, tipo Bruce Willis. A evolução de Eastwood é das surpresas mais agradáveis da historia do cinema.

Após mais de duas décadas encarando pistoleiros de “Western-Spaguetti”, policiais violentos, e outros brutamontes brigões, Clint eastwood começou a flertar com a direção em 1988 com “Bird”, um tocante filme sobre o musico de jazz Charlie Parker. E aos poucos foi transicionando de seus personagens durões e mal encarados para se transformar em um diretor de primeira grandeza.

É interessante saber que apesar da fama de valentão que seus filmes lhe renderam, Clint é na verdade, segundo o relato de atores por ele dirigidos, um cavalheiro. Todos afirmam que ele é extremamente gentil e educado e que nunca levanta a voz para seus atores ou usa qualquer tom mais agressivo. Aliás, seus filmes como diretor são de uma delicadeza impar e cheios de sutilezas.

E este é certamente o caso de “Gran Torino”, seu filme mais recente, já disponível em DVd. A critica especializada não foi muito generosa, mas pessoalmente eu o vejo como uma pequena obra-prima. Talvez muitos tenham desdenhado do filme, porque Eastwood, que além de dirigir também o protagoniza, volta a encarnar um de seus personagens durões do passado. Só que dessa vez com muito mais profundidade que antes.

“Gran Torino” conta a historia de Walt Kowalski, um veterano da Guerra da Coréia que acabou de perder sua esposa . o personagem de Eastwood é um velho ranzinza e “casca grossa” que não suporta ver sua vizinhança se transformar em uma área multicultural, repleta de gangues de orientais, latinos e negros. Pra completar sua frustração, uma família de imigrantes vietnamitas se muda para a casa do lado e ele se vê obrigado a conviver diariamente com as diferenças culturais que tanto despreza. Em determinando momento, seu vizinho adolescente é forçado por membros de uma gangue de orientais a roubar o seu belo carro antigo, ano ‘72 ( o “Gran Torino” do titulo), e acaba sendo pego por Kowalski. A partir daí, aos poucos surge uma relação de amizade inesperada entre esse dois personagens tão diferentes.

O filme tem tantos elementos interessantes que fica até difícil comentar sem estragar a experiência de quem ainda não o assistiu. O carro, por exemplo, funciona como um emblema da luta contra as mudanças inevitáveis do tempo que o veterano trava diariamente. Muitos dos dramas e questões profundas da sociedade Americana estão também lá presentes. A situação dos idosos nos Estados unidos que não tem o menor pudor em mandar seus pais e avós para o asilo, a falta de intimidade entre pais e filhos, o desrespeito com as minorias, a facilidade da compra e porte de armas, a dificuldade de readaptação dos veteranos de guerra, os conflitos étnicos, a deteriorização do “America way of life”, são alguns dos aspectos abordados sutilmente em “Gran Torino”.

A violência está presente no filme, mas é tratada de forma elegante e profunda, sem cenas gratuitas ou desnecessárias. Em momento algum o filme descamba para um daqueles estúpidos filmes de gangues ou de justiceiros, como os de Charles Bronson, ou coisa parecida. Eastwood continua amedrontador mesmo do alto de seus 79 anos, mas empresta muita profundidade à composição de Walt Kowalski, que na verdade tem muito mais sensibilidade do que a sua cara fechada mostra.

Achei particularmente interessante a inclusão de um jovem padre católico na trama, que tenta, a pedido da falecida esposa de Kowaslki, levá-lo de volta ao confessionário. O padreco acaba descobrindo com as tempestuosas conversas com o velho ranzinza, que nem tudo se aprende no seminário. A vida é muito mais complexa do que os livros de teologia ou psicologia mostram. A situação me fez lembrar de muitos pastores que conheci…

Clint Eastwood parece que como vinho, fica melhor a cada ano que passa, seja como ator ou como diretor. E para os que não sabiam, ele também é ótimo compositor e pianista, e junto com seu filho Kyle Eastwood, compôs parte da bela trilha sonora de “Gran Torino”. Não se deixe enganar pelas criticas negativas; “Gran Torino” é um filmaço com todas as letras.

Um Abraço,

Leon Neto