A proposta desta coluna é falar sobre música e cinema, sempre dentro de uma perspectiva cristã. Certamente, novela não se enquadra diretamente dentro desta proposta. Além disso, pessoalmente detesto o citado gênero, como aliás, já deixei bem claro em colunas anteriores.

Mas, o episódio da novela “Duas Caras” da rede Globo, que recentemente retratou uma evangélica ensandecida liderando um quase linchamento de um casal homossexual, causou tanto burburinho, que resolvi abrir uma exceção e abordar o assunto.

Começo dizendo que não acompanho novela nenhuma, com muito orgulho, e que só fiquei sabendo do assunto através do “FolhaGospel” e de uma reportagem da rede Record. Reportagem essa, que dedicou um tempo considerável ao assunto, com depoimentos de diversas personalidades e lideres religiosos de várias denominações. Não tenho notícia de nenhuma outra emissora noticiando o tal capítulo, mas, como tenho acesso a poucos canais brasileiros, posso estar enganado.

Claro que o autor da novela, Agnaldo Silva, retratou os evangélicos de forma caricata e estereotipada; o que você esperava? A rede Globo sempre fez isso. Não só deve ter gostado da forma que Agnaldo desenvolveu os personagens evangélicos da novela, como deve ter estimulado a caracterização exagerada e fora de prumo. Quando a Globo passar a tratar evangélicos com respeito e igualdade, o mundo acaba no dia seguinte…

Eu fui criado desde minha primeira infância em ambientes evangélicos, freqüentando igrejas, colégios e acampamentos de todas as denominações que existem, e nunca vi nada parecido com o que aquela personagem fez. E olha que já vi muito absurdo por aí. Essa coisa de linchamento em praça pública é mais próximo da Igreja católica do que das evangélicas. Basta lembrar da santa inquisição e das cruzadas, ou mesmo das perseguições religiosas que Frei Damião entre outros, empreendeu no nordeste brasileiro, em um passado não muito distante.

Entre as igrejas evangélicas, a que mais se aproxima, é a Universal, que já andou chutando santa e indo à cemitérios e encruzilhadas, em atos de confrontação à práticas de umbandistas e espíritas. Mas, mesmo assim sem desembocar em atos violentos, como os da novela.

Talvez por isso, a Record se vestiu de “paladino da justiça” evangélico e bateu com toda a força que pôde na Globo e em Agnaldo Silva. Claro que a reportagem da Record foi tendenciosa e sensacionalista; o que você esperava? O dono da rede já declarou publicamente seu ódio pela Globo (ódio e coisa de cristão?), e não iria perder uma chance dessas, não é? . E de qualquer forma foi bom que alguma emissora apresentasse o outro lado da questão. Detalhe: nenhuma das autoridades religiosas entrevistadas era da Igreja Universal.

Dito isso, acho que a reação do público evangélico foi um pouco exagerada. Em primeiro lugar, crente não deveria estar perdendo seu tempo assistindo às porcarias das novelas da Globo. Tem muitos outros programas melhores ou mesmo outras atividades mais edificantes que se pode fazer. Em segundo, novela é obra de ficção; o autor não tem a menor obrigação de retratar a realidade. Se ele quiser colocar um cavalo falante na trama, tem todo o direito de fazê-lo. Assim como o público tem o direito de mudar de canal e não assistir à novela, se não gostar do que é mostrado na telinha.

O que é mais lamentável, é o fato de que novela da Globo continua tendo um público enorme e influenciando os hábitos e valores de nossa sociedade. Isso é algo alarmante, se pensarmos em como os valores cristãos são pisoteados e negados a todo instante de forma direta e indireta nesses folhetins desprezíveis. Nossa melhor forma de protestar seria uma mobilização para que ninguém mais assistisse a essas excrescências da nossa sub-cultura. Aí sim, com a audiência em baixa, a Globo talvez mudasse um pouco sua linha editorial. Ficar se escandalizando por conta de um personagem e continuar sendo noveleiro, é no mínimo hipocrisia.

Um abraço,

Leon Neto