Mesmo saindo um pouco da proposta da coluna, achei que valia a pena comentar sobre um evento de grande repercussão no cenário político norte-americano e que certamente tem muito a ver com a comunidade evangélica mundial.

Trata-se do “Fórum Civil”, idealizado pelo Pastor Rick Warren, conhecido mundialmente pela série de livros iniciados com “Uma Vida com Propósito”, que já vendeu cerca de 35 milhões de cópias no mundo inteiro.

A idéia foi reunir os dois candidatos à presidência dos Estados Unidos, Barack Obama e John McCain, para um “debate” em sua Igreja-base, Saddleback Baptist Church, na Califórnia. Na verdade, o formato não foi o de um debate na forma com a qual estamos acostumados. E aliás nunca foi chamado de debate, mas sim de “fórum” de idéias. Ao invés de debaterem, os candidatos se alternaram por uma hora cada um, respondendo as mesmas perguntas sobre os mais variados temas enquanto um candidato respondia , o outro esteve o tempo todo em outra sala sem acesso às respostas do adversário.

De forma geral, tanto Obama quanto McCain estiveram bem à vontade e responderam às perguntas com desenvoltura. A audiência se manteve educada e se manifestou de forma moderada. Rick Warren se mostrou também bastante confortável como mediador, e conseguiu manter um ritmo agradável ao “debate”. As perguntas foram bem elaboradas e relevantes e embora abordassem temas ligados à religião, como aborto, e pesquisas com células-tronco, não foram segmentárias em momento nenhum.

Mais do que o resultado do evento e os desdobramento dos comentários de cada candidato, o que achei mais interessante foi a proposta em si. Imagine só algo semelhante no nosso contexto. Imagine levar Lula e José Serra para um debate na Igreja da Lagoinha. Acho que seria ótimo se conseguíssemos algo assim. O povo evangélico precisa começar a entender que envolvimento com política é parte fundamental de nossa cidadania. E não estou falando aqui de política partidária ou de fazer campanha para quem quer que seja. Mas de tomar consciência de que o poder emana do povo e deve ser exercido para o seu bem de forma isenta e altruísta. Em vez de apenas ficarmos falando mal dos políticos que estão no poder, precisamos entender que somos nós que temos o poder de os colocar lá, e tirá-los se for o caso. Mas, com essa nova lei estúpida que cerceia a liberdade de imprensa em nosso país, um evento desse tipo seria praticamente impossível de acontecer.

O fórum de Saddleback foi um marco na história política americana e muito ainda vai ser comentado sobre seus efeitos. Os noticiários políticos deram grande espaço ao evento e muitos comentaristas debateram sobre as respostas de cada candidato e sobre a proposta do fórum. Certamente os mais liberais torceram o nariz para o fato de uma igreja batista estar envolvida em algo tão importante, mas Rick Warren conquistou a simpatia da sociedade americana de forma tão unânime que todos terminaram por elogiar o tom de isenção imprimido ao debate.

O grande ponto positivo, na minha opinião, foi o fato de que não se tentou extrair dos candidatos repostas que iriam agradar ao segmento evangélico, ou que iriam de encontro aos interesses específicos da comunidade cristã americana. Achei ótimo pois, como Igreja de Cristo temos que lutar por tudo que é justo, bom e digno e não por vantagens pessoais ou comunitárias.

O toque cômico aconteceu quando Rick Warren perguntou a Barrack Obama, que tem como plataforma de campanha aumentar o imposto de renda para os mais ricos, como ele definiria riqueza. Ao que ele respondeu: “bem, alguém que vende 35 milhões de livros certamente estaria incluído nessa categoria…”

Um abraço,

Leon Neto